Grave! Banesprev exclui participantes da governança e entrega cargos de eleitos a indicados do Santander
As portas estão se fechando para a representação direta dos
participantes na governança do Banesprev. Com o fim dos mandatos de Maria
Auxiliadora Alves da Silva, na Diretoria Administrativa, e de Márcia Campos, no
Comitê de Investimentos, cargos que contavam com representantes eleitos, passam
a ser ocupados sob novas regras, que ampliam o poder de indicação do Conselho
Deliberativo, controlado majoritariamente por representantes do Santander.
O diretor financeiro, que também era eleito, já havia
passado para os indicados do banco após uma decisão judicial.
Na Diretoria Administrativa, Maria Auxiliadora, eleita e
reeleita pelos participantes para a gestão 2020–2026, está de saída. A sucessão
será feita por um nome escolhido pelo Conselho Deliberativo e ligado ao banco,
que ainda aguarda habilitação da Superintendência Nacional de Previdência
Complementar (Previc) para assumir efetivamente o cargo, segundo informações
apuradas pela Afubesp.
O caso evidencia uma mudança que diminui drasticamente o
modelo de governança. Historicamente, os participantes escolhiam diretamente o
diretor administrativo e o diretor financeiro. Com a reforma estatutária
aprovada em 2021, os cargos da Diretoria Executiva deixaram de ser preenchidos
por eleição direta dos associados, e a composição passou a seguir um processo
de seleção conduzido pelo Conselho Deliberativo. A própria entidade anunciou a
aprovação das alterações pela Previc em maio daquele ano.
A situação do Comitê de Investimentos é ainda mais emblemática.
Com o encerramento em 10 de outubro dos mandatos dos representantes eleitos
pelos participantes, termina também o modelo de representação direta nesse
colegiado. Pelo regimento atual, os integrantes passam a ser indicados pelo
Conselho Deliberativo, cuja composição conta com quatro representantes
indicados pelo Santander e dois eleitos pelos participantes.
Na prática, a mudança concentra as indicações nas mãos de um
colegiado em que o patrocinador tem maioria. Isso reduz a possibilidade de os
participantes influenciarem diretamente as decisões relacionadas aos
investimentos dos recursos que sustentam seus planos previdenciários.
Márcia Campos denuncia perda de representação
Representante eleita pelos participantes no Comitê de
Investimentos durante as gestões 2023-2026, Márcia Campos manifestou indignação
com o fim da presença de membros escolhidos diretamente pelos associados. Em
sua última reunião do colegiado, ela pediu que sua posição fosse registrada em
ata.
“Quero registrar minha profunda indignação com relação ao
rebaixamento do nível de governança do Banesprev representado pela ausência de
membros eleitos pelos participantes no Comitê de Investimentos. Afinal, a
totalidade dos recursos financeiros a eles pertencem. Somente membros eleitos diretamente
pelos participantes possuem a legitimidade para representá-los”, disse.
Segundo Márcia, o pedido para registrar a manifestação não
foi atendido, apesar de ter feito a colocação durante a reunião. Ou seja, o
Banesprev se recusou a fazer uma ata que realmente refletisse o que houve em
reunião. Ela afirma ainda que a ata da reunião continua sem a assinatura dos
membros eleitos.
A mudança ocorre após décadas em que a estrutura de
governança do Banesprev previa a participação direta dos participantes em todas
as instâncias.
Com o novo Estatuto, aprovado em 2021, a representação
eleita passa a existir apenas nos Conselhos Deliberativo e Fiscal, com 1/3
(minoria) de suas vagas destinadas aos participantes. Conforme previsão na Lei
109/2001, o Banesprev estava com uma governança superior à lei, o que é legal.
A Afubesp lamenta as mudanças que apenas enfraquecem a
governança e reduzem a participação dos associados nas decisões sobre seu
próprio patrimônio.
Recordar é viver
A luta contra as mudanças que enfraquecem a governança do
Banesprev e reduzem o poder de decisão dos participantes vem de longe. Em 2015,
a Afubesp conseguiu impedir alterações no Estatuto (sub judice) que restringiam
as atribuições da Assembleia de Participantes. Mas, em fevereiro de 2019, logo
após a posse de Jair Bolsonaro, foi aprovada uma reforma estatutária que
reduziu esses poderes.
No mesmo período, sem qualquer transparência e à revelia dos
normativos que regem o setor de previdência complementar, o Banesprev alterou a
forma de avaliação dos títulos dos nossos planos para marcação a mercado,
medida que contribuiu para déficits que continuam pesando no bolso dos
participantes.
Em 2021, uma nova reforma do Estatuto reduziu ainda mais a
presença de representantes eleitos na governança do Banesprev, retirando da
Diretoria Executiva os cargos preenchidos por eleição e excluindo o Comitê de
Investimentos do texto estatutário.
Em 2022, o Santander notificou o fundo que iria retirar o
patrocínio, dando início a mais uma frente de luta dos participantes em defesa
de seus direitos, que segue até hoje graças ao atual governo progressista.
A partir de 2023, com a mudança no governo federal,
abriram-se novas perspectivas para a mobilização dos participantes. Mas a
indignação e disputa pela preservação da representação eleita na governança do
Banesprev continua.
Logo, optar nas urnas por um governo de extrema direita
coloca em risco não só o Banesprev, mas o sistema de previdência complementar
como um todo, uma vez que são antigas as intenções de transferir benefícios
para bancos e seguradoras.
A experiência chilena nos serve de alerta: o modelo baseado
na capitalização individual, implantado nos anos 1980, produziu aposentadorias
insuficientes para grande parte dos trabalhadores e levou o país a buscar
mecanismos de urgência para complementação dos ganhos dos aposentados, que
passaram a depender quase totalmente de seus familiares.
Fonte: Afubesp
