A renovação do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) do Itaú foi
tema de duas negociações realizadas na terça-feira (27), na sede da
Contraf-CUT, e nesta quarta-feira (28), na sede do banco. A pauta reuniu
reivindicações sobre teletrabalho, ponto eletrônico, banco de horas, quitação
do registro de ponto, auxílio-educação e condições de trabalho, além de
questões relacionadas ao monitoramento digital, à saúde dos trabalhadores e à
transição das certificações profissionais da Anbima.
Para a coordenadora da Comissão de Organização dos Empregados (COE) do Itaú,
Valeska Pincovai, a renovação do acordo deve assegurar direitos, ampliar a
transparência nas relações de trabalho. “As negociações precisam garantir que
os avanços tecnológicos não se transformem em instrumentos de vigilância
permanente e pressão sobre os trabalhadores. O banco tem a obrigação de dar
transparência às ferramentas que utiliza, respeitar a jornada contratada e
assegurar o direito à desconexão”, pontua.
A também coordenadora da COE, Maria Izabel Menezes, destaca que a defesa dos
direitos também passa pela valorização profissional e pela proteção à saúde dos
funcionários. “Não podemos discutir um acordo dessa importância sem tratar das
condições reais de trabalho, das metas e do adoecimento. Queremos compromissos
claros, que garantam que ninguém seja prejudicado por um afastamento e que a
gestão do banco respeite os limites e os direitos dos trabalhadores”, ressalta.
Ponto eletrônico e direito à desconexão
A COE Itaú destacou a importância da manutenção do ponto
eletrônico como instrumento de registro da jornada de trabalho. O mecanismo é
fundamental para assegurar que as horas efetivamente trabalhadas sejam
registradas e remuneradas, além de contribuir para o respeito aos limites da
jornada e ao direito à desconexão.
A renovação do acordo também contempla a cláusula de quitação do registro de
ponto, que será mantida integralmente. A orientação do movimento sindical é que
os trabalhadores acompanhem os registros e, caso identifiquem qualquer divergência,
procurem o sindicato para receber orientação.
Teletrabalho: COE cobra reajuste e manutenção da ajuda de
custo
Na discussão sobre o teletrabalho, a COE reivindicou a
manutenção da ajuda de custo, cujo valor atual é de R$ 1.381,68 por ano,
equivalente a R$ 115,14 mensais. O benefício é superior ao previsto na
Convenção Coletiva de Trabalho (CCT).
O banco propôs reajustar o valor pela inflação. A representação dos
trabalhadores considerou a proposta insuficiente e reivindicou a aplicação do
mesmo índice de reajuste da categoria bancária, de 4,6%, correspondente à
inflação acrescida de 0,6%.
Outro ponto central é a manutenção do benefício a partir de 2028, quando os
trabalhadores do Itaú passarão a cumprir mais um dia presencial por semana.
Pelas regras da CCT, quem trabalhar remotamente menos de três dias por semana
pode perder o direito à ajuda de custo. A COE defende que o acordo específico
do banco preserve o benefício mesmo com a mudança na frequência do trabalho
presencial.
Monitoramento digital: exigência de transparência e limites
Um dos principais temas da negociação foi o monitoramento
das atividades dos funcionários por meio de ferramentas digitais. A COE cobrou
transparência sobre os recursos utilizados pelo banco para acompanhar a rotina
profissional, identificar atividades e produzir indicadores de produtividade.
O Itaú se comprometeu a levar à mesa de negociação os termos assinados pelos
trabalhadores, para que a representação sindical possa conhecer seu conteúdo e
avaliar a necessidade de complementações. A intenção é garantir que os
documentos informem, de maneira clara, quais ferramentas são utilizadas, suas
finalidades e quem detém sua propriedade.
A cobrança inclui esclarecimentos sobre o monitoramento realizado por
plataformas como Microsoft Teams, Office 365 e OneDrive, além do controle de
mensagens enviadas por e-mails corporativos, reuniões virtuais, horários,
participantes e conteúdos registrados.
A COE também solicitou informações sobre softwares instalados nos notebooks,
como XOne e ThousandEyes, e sobre eventuais recursos de monitoramento ativo,
incluindo geolocalização, comportamento de uso das máquinas, acesso a sites,
utilização de programas, e-mails, chats, câmeras e microfones.
Outro ponto levantado foi a existência de ferramentas capazes de registrar o
uso do teclado e do mouse, identificar períodos de atividade ou ausência e
mapear quais programas permanecem abertos e por quanto tempo são utilizados. A
representação dos trabalhadores quer esclarecimentos sobre a efetiva utilização
desses recursos pelo banco, assim como sobre os indicadores gerados pelas
plataformas digitais.
A COE também cobrou transparência quanto à exigência de disponibilidade no
Teams e à obrigatoriedade de utilização de determinados canais e ferramentas
digitais. A preocupação inclui o monitoramento das agências digitais, cujas
condições de trabalho também precisam ser consideradas nas negociações.
A reivindicação é que todas as informações sobre essas ferramentas constem
expressamente nos termos apresentados aos funcionários. A COE defende ainda que
os mecanismos de monitoramento não sejam utilizados exclusivamente para avaliar
o cumprimento de metas e a entrega de resultados, nem sirvam de fundamento para
advertências ou punições.
Banco de horas: domingo passa a ter compensação em dobro
Na negociação sobre o banco de horas, foi discutida a
compensação do trabalho realizado aos sábados, domingos e feriados. A regra
anterior previa multiplicador de 1,5 para sábados e domingos e de duas vezes
para feriados.
A COE reivindicou que as horas trabalhadas aos domingos também sejam
compensadas em dobro, equiparando-se ao tratamento já previsto para os
feriados. Na negociação, ficou estabelecida a mudança para o multiplicador de
duas vezes aos domingos.
A representação sindical também levou à mesa denúncias de gestores que estariam
tentando impor unilateralmente os momentos de compensação das horas, inclusive
por meio do aumento do intervalo de almoço.
O banco afirmou que verificará essas situações e orientou os trabalhadores a
utilizar o canal de denúncias. A COE reforçou que, conforme a cláusula do
acordo, a compensação deve ocorrer de comum acordo, sem imposição unilateral da
chefia.
Auxílio-educação: reivindicação de mais bolsas e reajuste
A ampliação do auxílio-educação também esteve na pauta. A
COE reivindicou o aumento do número de bolsas, atualmente fixado em 5.661. O
banco ficou de avaliar a proposta e apresentar uma resposta.
O benefício contempla cursos de graduação e pós-graduação. Em relação aos valores,
o Itaú ofereceu reajuste de 3,98%, correspondente ao INPC do período. A
representação dos trabalhadores reivindicou a aplicação do índice de 4,60%,
utilizado como referência para o reajuste da categoria bancária.
Retorno de afastamentos: proteção contra prejuízos nas metas
A COE também cobrou a ampliação das medidas de acolhimento
aos trabalhadores que retornam de afastamentos. Atualmente, nas agências
físicas e digitais, há uma redução temporária das metas individuais: 100% de
desconto no primeiro mês, 75% no segundo e 50% no terceiro.
A reivindicação é estender essa proteção aos funcionários que atuam nos
departamentos administrativos, para evitar que o retorno ao trabalho seja
acompanhado de pressão excessiva ou prejuízos decorrentes das metas.
O banco negou a ampliação, argumentando que o modelo de metas das agências é
diferente daquele aplicado às áreas administrativas. A COE insistiu, porém, que
o acordo deve assegurar que o trabalhador não seja prejudicado pelas metas após
o retorno de um afastamento e isso estará no acordo.
Como encaminhamento, o Itaú se comprometeu a agendar uma reunião com a área de
Recursos Humanos para explicar à representação sindical como funciona
atualmente o processo de retomada das atividades e de definição de metas para
os funcionários administrativos.
Riscos psicossociais: banco apresentará resultados de
pesquisa
A saúde dos trabalhadores e a prevenção de adoecimentos
também foram debatidas. A COE reivindicou a inclusão, no acordo, de uma
pesquisa realizada conjuntamente com os funcionários para identificar riscos
psicossociais e subsidiar a elaboração de um programa de gerenciamento de
riscos.
Embora o tema já esteja previsto na CCT, a proposta busca garantir a
participação dos trabalhadores e a construção conjunta de um diagnóstico sobre
as condições de trabalho, contribuindo para a definição de medidas preventivas.
O banco não aceitou a inclusão da cláusula.
O Itaú informou que já realiza uma pesquisa denominada HSE-IT, baseada em
metodologia de avaliação de riscos psicossociais no ambiente profissional, e
que pretende aplicá-la no início de 2027. Segundo o banco, os resultados serão
apresentados à COE assim que estiverem disponíveis.
Indenização por fechamento de agências
A COE voltou a reivindicar a ampliação da indenização
destinada aos trabalhadores atingidos pelo fechamento de agências. Não houve
avanço nessa discussão durante as negociações. Por enquanto, permanece
garantida a indenização prevista na Convenção Coletiva de Trabalho.
Certificações da Anbima: orientações para trabalhadores
afastados
As negociações também abordaram a transição das
certificações profissionais da Anbima, especialmente os procedimentos
aplicáveis aos trabalhadores licenciados.
Para os funcionários afastados que já concluíram as microcertificações
exigidas, o banco informou que não exigirá a realização de cursos ou
treinamentos durante a licença. O prazo de 31 de dezembro de 2026 se aplica aos
trabalhadores ativos. Caso o funcionário licenciado conclua as etapas por
iniciativa própria ainda em 2026, o banco custeará a transição, com base nas
informações encaminhadas pela Anbima. Não será necessário emitir ou pagar
boletos nem enviar informações ao banco.
Para aqueles que ainda não concluíram as microcertificações, a Anbima prevê
prorrogação automática de 45 dias após o encerramento da licença, conforme os
critérios de elegibilidade e os prazos estabelecidos pela entidade. O banco
assumirá o custo da transição após o retorno ao trabalho, desde que os
requisitos sejam cumpridos.
A prorrogação contempla trabalhadores em licença com retorno previsto entre 27
de dezembro de 2026 e 31 de dezembro de 2027, além daqueles que iniciarem a
licença até 26 de dezembro de 2026 e tiverem retorno previsto até 31 de
dezembro de 2027.
Para retornos a partir de 1º de janeiro de 2028, não haverá prorrogação do
prazo de transição. Nesses casos, o funcionário deverá obter a nova
certificação mediante aprovação em exame aplicado diretamente pela Anbima.
Negociação continua
A COE Itaú aguarda que o banco marque uma nova data de
negociação para apresentar o retorno às reivindicações feitas pelo movimento
sindical.
Fonte: Contraf-CUT