Greve na Caixa: o que a Contraf-CUT disse ao TST em defesa dos empregados
A Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro
(Contraf-CUT) apresentou neste sábado (26) sua defesa no dissídio coletivo
aberto pela Caixa Econômica Federal no Tribunal Superior do Trabalho (TST). A
contestação sustenta que a greve é legítima, que a responsabilidade pelo
impasse nas negociações não pode ser atribuída aos trabalhadores e que questões
centrais, como o futuro do Saúde Caixa, não podem ser definidas de forma
unilateral pelo banco.
Mais do que responder ao pedido da Caixa para que a greve seja considerada
abusiva, a defesa reafirma a legitimidade da pauta construída coletivamente
pela categoria e aprovada no 41º Congresso Nacional dos Empregados da Caixa
(Conecef). É essa pauta (e não apenas os pontos selecionados pelo banco em sua
proposta ao TST) que orientou as negociações durante toda a Campanha Nacional
de 2026.
A Caixa levou a greve ao TST em 24 de setembro. No processo, pediu que o
movimento fosse declarado abusivo, que 80% dos empregados permanecessem
trabalhando e que cada entidade sindical pagasse multa diária de pelo menos R$
100 mil. Também pediu que o próprio Tribunal estabeleça as regras do novo
acordo coletivo, incluindo o custeio do Saúde Caixa.
A Contraf-CUT contesta esses pedidos e reafirma que a solução para o conflito
deve preservar os direitos históricos da categoria e, sempre que possível, ser
construída pela negociação coletiva.
Greve é legal
A defesa apresentada pela Contraf-CUT demonstra que a greve
cumpriu os requisitos previstos na Lei nº 7.783/1989, a Lei de Greve.
Foram realizadas 13 rodadas de negociação, além de mediação com o Ministério
Público do Trabalho (MPT), assembleias em todo o país e comunicação prévia à
Caixa e à sociedade. A greve nacional teve início em 10 de setembro, depois de
sucessivas tentativas de negociação e da rejeição das propostas apresentadas
pelo banco.
A Constituição Federal assegura aos próprios trabalhadores o direito de decidir
quando recorrer à greve e quais interesses defender por meio dela. Por isso, a
Contraf-CUT pede ao TST que declare a não abusividade do movimento.
A contestação ressalta ainda que a atividade bancária, de maneira geral, não
integra o rol de serviços essenciais definido pela legislação. A Lei de Greve
inclui especificamente a compensação bancária, o que, segundo a defesa, não
pode ser confundido com o funcionamento integral das agências, plataformas e
áreas administrativas.
A pauta aprovada no 41º Conecef também está em jogo
A defesa da Contraf-CUT recupera o processo democrático de
construção das reivindicações dos empregados e empregadas da Caixa.
O 41º Conecef foi realizado entre os dias 17 e 19 de junho, em São Paulo, com
representantes dos trabalhadores de todo o país. Na plenária final foram
aprovadas as reivindicações específicas da Campanha Nacional de 2026. A minuta
foi entregue à Caixa em 24 de junho.
Entre os principais eixos estão o fortalecimento do Saúde Caixa e o fim do teto
de custeio, a ampliação do quadro de empregados, valorização das carreiras,
transparência e negociação da remuneração variável, melhores condições de
trabalho, combate às metas abusivas, além da defesa da Funcef e da Caixa
pública.
Ao longo das negociações, entraram ainda em debate questões como teletrabalho e
direito à desconexão, PCS e PFG, processos de ascensão, diversidade e inclusão,
condições para pessoas com deficiência, enfrentamento da sobrecarga, do
assédio, dos riscos psicossociais e do adoecimento provocado pelas condições de
trabalho.
Por isso, para a representação dos trabalhadores, o dissídio não pode reduzir toda
a Campanha Nacional a uma discussão sobre percentuais ou simplesmente
substituir a negociação coletiva pela proposta que a Caixa decidiu levar ao
Judiciário.
A disputa envolve também que tipo de Caixa os trabalhadores defendem: uma
empresa pública forte, com papel social, quadro suficiente de empregados,
atendimento de qualidade à população e trabalhadores valorizados. O 41º Conecef
foi justamente o espaço de construção dessa pauta coletiva. A programação do
congresso concentrou os debates em Saúde Caixa e condições de trabalho;
carreira e remuneração; e defesa da Caixa e da Funcef.
Quem travou a negociação foi a Caixa
A contestação reconstrói todo o histórico da Campanha
Nacional: a realização do 41º Conecef, a entrega da pauta em 24 de junho, as 13
rodadas de negociação, a greve e as três propostas submetidas às assembleias.
A última delas, apresentada após negociação que atravessou a madrugada de 16
para 17 de setembro, foi rejeitada por 102 bases sindicais e aprovada por 30.
Mesmo diante da continuidade das negociações e da mobilização dos empregados, a
Caixa enviou, em 12 de setembro, comunicado interno informando que deixaria de
aplicar cláusulas do ACT 2024/2026, não implementaria reajustes, PLR e outros
efeitos econômicos da negociação e manteria o Saúde Caixa por apenas 60 dias.
Para a Contraf-CUT, retirar direitos enquanto o processo negocial permanecia
aberto viola a boa-fé que deve orientar a negociação coletiva. A empresa,
sustenta a defesa, não pode contribuir para o impasse e depois usar esse mesmo
impasse para acusar os trabalhadores de abuso do direito de greve.
A Confederação também registrou que aceitou participar de nova tentativa de
conciliação no TST, mas que a Caixa se antecipou ao afirmar que não havia
possibilidade de avanço.
Os 60% e a multa de R$ 100 mil
Antes de ouvir as entidades sindicais, o ministro relator do
processo, Maurício Godinho Delgado, concedeu parcialmente a liminar pedida pela
Caixa.
A decisão determinou a manutenção de 60% dos empregados em atividade em cada
agência, presencialmente ou de forma remota, durante a paralisação, e
estabeleceu multa diária de R$ 100 mil para a entidade sindical que descumprir
a determinação.
Por outro lado, a liminar manteve provisoriamente as cláusulas do ACT 2024/2026
até a decisão definitiva do dissídio e rejeitou o pedido da Caixa para impedir
atos sindicais nas unidades, diante da inexistência de indícios de excessos na
condução da greve.
Na contestação, a Contraf-CUT pede que a exigência dos 60% seja revista e
considera a multa desproporcional, por entender que ela pode funcionar como
instrumento de inibição do exercício de um direito fundamental.
Saúde Caixa: o centro da disputa
O Saúde Caixa foi o principal ponto de tensão durante toda a
campanha e ocupa lugar central na contestação.
Para a categoria, a discussão não pode ser reduzida simplesmente à necessidade
de cobrir déficits. O que está em jogo é quem deve assumir a responsabilidade
pelo financiamento do plano e como preservar seu caráter solidário, mutualista
e intergeracional.
A reivindicação aprovada pelos empregados é clara: retomada do custeio de 70%
pela Caixa e 30% pelos beneficiários, fim do teto estatutário de 6,5% da folha
que limita a participação do banco e reajuste zero das contribuições.
A própria contestação destaca que as demandas históricas da categoria pelo
modelo 70/30 ganharam respaldo também na orientação de custeio para empresas
estatais e que a imposição do teto de 6,5% passou a limitar a participação
financeira da Caixa no plano.
A defesa também reivindica igualdade para os empregados admitidos depois de
agosto de 2018, inclusive com direito à manutenção do Saúde Caixa após a
aposentadoria.
A lógica defendida pelos trabalhadores é simples: a sustentabilidade do plano
não pode ser construída aumentando continuamente a parcela paga pelos
empregados, aposentados e pensionistas enquanto se mantém artificialmente
limitado o compromisso financeiro da patrocinadora.
A própria Caixa reconheceu que podia pagar mais
Ao longo das mesas de negociação, a Caixa modificou diversas
vezes sua proposta para o plano.
Inicialmente, chegou a apresentar modelos de cobrança por faixa etária. Depois,
recuou e, na proposta final apresentada na mesa de negociação de 16 e 17 de
setembro, restabeleceu o modelo solidário e o pacto intergeracional.
Também reconheceu concretamente que sua participação no custeio poderia ser
ampliada: primeiro para 8% e, na última proposta, para 9% da folha de pagamento
e dos proventos, a partir de 2027.
Segundo a própria negociação, a elevação de 6,5% para 9% significaria
aproximadamente R$ 1 bilhão por ano a mais de capacidade de financiamento do
Saúde Caixa pela empresa. A proposta também previa que não haveria reajuste das
mensalidades em 2026 nem cobrança extraordinária dos beneficiários para cobrir
o déficit daquele exercício.
No processo levado ao TST, entretanto, a Caixa voltou atrás justamente em sua
contrapartida.
A proposta de sentença normativa mantém em 6,5% da folha o teto de participação
da empresa, mas preserva vários dos aumentos de valores cobrados dos
beneficiários que faziam parte da proposta negociada.
Em outras palavras: a Caixa levou ao Judiciário os aumentos para os empregados,
mas retirou o aumento de sua própria participação que havia colocado sobre a
mesa.
Fonte: Contraf-CUT, com base nas propostas apresentadas na
mesa de negociação e no dissídio coletivo. O quadro integra a minuta
informativa elaborada a partir da contestação.
A diferença da última linha é fundamental. Na mesa, a Caixa reconheceu a
possibilidade de elevar sua participação para 9% da folha. No TST, retornou ao
limite de 6,5%, mas manteve os aumentos cobrados dos usuários.
E mesmo os 9% propostos pelo banco não significavam a retomada integral do
70/30. A reivindicação da categoria continua sendo que a Caixa arque com 70% do
custeio, sem o teto estatutário, e os beneficiários com 30%, preservando o
princípio de solidariedade que historicamente estrutura o plano.
Saúde Caixa não pode ficar nas mãos de decisões unilaterais
A contestação também chama a atenção para dois dispositivos
da proposta da Caixa considerados especialmente graves.
Um deles daria à empresa a prerrogativa de promover novos ajustes no custeio
para restabelecer o equilíbrio atuarial sem nova negociação coletiva, sem
aditamento da sentença e sem anuência dos beneficiários.
Outro permitiria que a Caixa transferisse a gestão do Saúde Caixa para uma
entidade externa, também sem que essa mudança estrutural tivesse de ser
previamente negociada.
Para a Contraf-CUT, isso significaria retirar da mesa de negociação exatamente
o tema que provocou o maior impasse desta campanha.
Não se trata de uma questão secundária. Custeio, gestão e sustentabilidade do
Saúde Caixa são assuntos que historicamente fazem parte da negociação coletiva
entre a Caixa e as entidades representativas dos trabalhadores.
A defesa também impugnou o laudo atuarial apresentado pelo banco, destacando
que o prazo concedido para análise da documentação foi incompatível com a
complexidade técnica do material.
Por isso, a reivindicação principal apresentada ao TST é a adoção da pauta da
categoria para o Saúde Caixa: 70% de custeio pela Caixa, 30% pelos
beneficiários, fim do teto de 6,5%, reajuste zero e preservação das demais
reivindicações aprovadas pelos trabalhadores.
Defendemos a sustentabilidade do Saúde Caixa e os empregados
A contestação faz ainda uma distinção importante: rejeitar
as propostas da Caixa não significa rejeitar medidas para garantir a
sustentabilidade do Saúde Caixa.
Durante toda a negociação, as entidades defenderam aumento da contribuição
patronal, novas fontes de receita, prevenção em saúde, aperfeiçoamento da
gestão, transparência dos dados e medidas estruturantes.
O que a categoria rejeitou foi a tentativa de colocar uma parcela
desproporcional do ajuste sobre empregados, aposentados e pensionistas.
A defesa sustenta, portanto, que eventuais desequilíbrios financeiros devem
levar as partes novamente à negociação e à busca de soluções estruturais, e não
servir de justificativa para transferir automaticamente mais custos aos beneficiários.
Proteção para quem fez greve
A Contraf-CUT também pediu ao TST proteção para os
trabalhadores que participaram da paralisação.
A reivindicação é para que os dias de greve sejam abonados ou,
subsidiariamente, compensados, sem descontos. Caso seja determinada
compensação, a defesa pede que ela possa ser negociada, inclusive com
possibilidade de realização em regime telepresencial.
A Confederação solicita ainda garantias contra qualquer forma de retaliação em
razão da participação na greve, como:
- garantia de emprego aos participantes do movimento;
- proibição de registro da adesão à greve em avaliações de desempenho, promoção por mérito, PLR ou programas de remuneração variável;
- proibição de descomissionamento, transferência ou alteração de lotação motivada pela participação na paralisação.
Esses pedidos constam expressamente da contestação.
Direitos conquistados não podem retroceder
Outro ponto central da defesa é a preservação do patrimônio
de direitos construído pela categoria bancária ao longo de décadas de
negociação nacional.
A Constituição determina que, no exercício do poder normativo, a Justiça do
Trabalho deve respeitar as disposições legais mínimas de proteção e as
condições anteriormente convencionadas. A contestação sustenta, por isso, que o
Tribunal não deve utilizar o dissídio para estabelecer condições inferiores às
conquistas consolidadas nos acordos anteriores.
Esse princípio vale não apenas para o Saúde Caixa.
A Contraf-CUT defende que o julgamento considere o conjunto da pauta aprovada
pela categoria, envolvendo emprego, carreira, condições de trabalho,
remuneração, PLR, remuneração variável, Funcef, inclusão e diversidade,
teletrabalho, saúde dos trabalhadores, combate às metas abusivas, defesa das
unidades de atendimento e fortalecimento da Caixa pública.
Ou seja, a defesa apresentada ao TST não abandona a pauta do 41º Conecef. Ao
contrário: busca impedir que a judicialização do conflito transforme uma
negociação coletiva ampla em uma decisão restrita aos parâmetros escolhidos
unilateralmente pelo banco.
A Confederação pediu ainda a manutenção da data-base de 1º de setembro, com
efeitos retroativos da eventual sentença normativa, especialmente sobre as
cláusulas econômicas.
Junto com a contestação, foram apresentados quatro anexos com análise das
cláusulas e propostas de redação para os pontos que deverão ser examinados pelo
Tribunal.
E agora?
O processo segue no TST sob relatoria do ministro Maurício
Godinho Delgado.
A Contraf-CUT registrou na contestação que permanece aberta à construção de uma
solução negociada, desde que qualquer nova proposta possa ser analisada
adequadamente e submetida às bases em prazo razoável.
Essa disposição para negociar, porém, não significa abrir mão das
reivindicações construídas coletivamente.
A defesa apresentada ao Tribunal reafirma que a greve é instrumento legítimo de
pressão dos trabalhadores, que os direitos conquistados não podem ser reduzidos
e que a solução para o Saúde Caixa passa pela recuperação da responsabilidade
da Caixa no financiamento do plano, com o custeio 70/30 e o fim do teto de
6,5%.
Da mesma forma, permanece em defesa o conjunto das reivindicações aprovadas
pelo 41º Conecef: valorização dos empregados, melhores condições de trabalho,
fortalecimento da Funcef e de uma Caixa pública, forte e comprometida com seu
papel social.
A informação e a participação dos trabalhadores continuam sendo fundamentais.
Acompanhe os informes das entidades sindicais e participe das assembleias. A
decisão sobre os rumos da mobilização cabe à categoria.
Fonte: Contraf-CUT

