A proposta de sentença
normativa apresentada pela Caixa Econômica Federal ao Tribunal Superior do
Trabalho (TST) para solucionar o dissídio coletivo contém uma série de mudanças
que podem representar perdas econômicas e de direitos para empregadas,
empregados, aposentados e pensionistas, caso sejam aceitas pelo TST.
O principal impacto está no Saúde Caixa. A Caixa voltou atrás no documento levado
ao Judiciário e retirou a proposta que elevaria de 6,5% para 9% da folha de
pagamento e proventos o teto da participação da empresa no custeio do plano.
Na minuta de sentença normativa, o banco mantém sua responsabilidade limitada a
70% das despesas ou 6,5% da folha, prevalecendo o menor dos dois valores.
A mudança é especialmente relevante porque o banco mantém o aumento dos custos
para os usuários. Pela minuta levada ao TST, o teto das contribuições
ordinárias do grupo familiar passa para 9% da remuneração-base, contra 7% no
último acordo do Saúde Caixa. A nova regra ainda estabelece contribuição mínima
de R$ 50 por beneficiário.
A última proposta negociada, em 16 e 17 de setembro, também previa elevação dos
valores pagos pelos beneficiários, mas havia uma contrapartida estrutural: o
teto da participação da Caixa passaria de 6,5% para 9%, ampliando a capacidade
de financiamento patronal do plano. Essa é justamente uma das principais
diferenças entre a proposta construída na mesa de negociações e a encaminhada
pelo banco ao dissídio.
Em outras palavras, a proposta judicializada pode atingir o bolso dos
beneficiários, mas elimina a principal elevação da responsabilidade financeira
do banco.
Veja tabela comparativa sobre as propostas do banco para o
Saúde Caixa
Pós-2018 sem garantia para a aposentadoria
Outro ponto sensível é a situação dos empregados contratados
depois de 31 de agosto de 2018. Deixa de existir o compromisso de estabelecer
um calendário com prazo definido para discutir, em mesa de negociações, a
isonomia de direitos com os anteriormente contratados, como reivindicado pelos
empregados pós-2018.
Proposta abre espaço para novos aumentos no Saúde Caixa
Há ainda outro dispositivo de forte impacto potencial.
A minuta da Caixa estabelece que mensalidades, limites de coparticipação e
limites de comprometimento da renda poderão ser reajustados automaticamente
para recompor o equilíbrio econômico-financeiro do plano, caso o cálculo
atuarial identifique insuficiência de custeio.
Isso amplia o risco de transferência de custos para trabalhadores e
aposentados, especialmente porque o limite patronal permanece em 6,5% da folha.
Também estão previstos teto familiar de 9%, cobrança de R$ 120 em pronto
atendimento e teto anual de R$ 4.700 para as demais coparticipações (acima dos
R$ 75 e R$ 3.600, respectivamente, vigentes no acordo encerrado em agosto).
PLR pode cair até 54%
A proposta da Caixa cria dois limites globais para a
distribuição da Participação nos Lucros e Resultados (PLR): até 15% do lucro
líquido, conforme garantido na CCT da categoria, ou até 25% dos dividendos, ou
ainda eventual percentual excepcional autorizado pela Sest, devendo prevalecer
o menor valor. Essa combinação pode reduzir substancialmente o volume
disponível para pagamento.
Uma simulação elaborada pelo Dieese a partir dos resultados de 2025, mostra
que, naquele ano a Caixa distribuiu cerca de R$ 2,3 bilhões em PLR, respeitando
o teto de 15% do lucro líquido. Se fosse aplicada a regra correspondente a 25%
dos dividendos obrigatórios utilizada na proposta de sentença, o montante
distribuído seria de aproximadamente R$ 1,045 bilhão, redução de 54%. Nesse
exemplo, a PLR média cairia de cerca de R$ 26,9 mil para R$ 12,4 mil.
O percentual de redução dependerá do lucro, da distribuição de dividendos e das
autorizações aplicáveis. A regra proposta, porém, cria concretamente a
possibilidade da distribuição de um valor bem menor do que atualmente.
Redutor da PLR deixa de proteger os menores salários
Outra mudança requerida pela Caixa é para que, diferentemente
do que estabelece a CCT, o redutor da PLR, caso o valor calculado ultrapasse o
limite global permitido, incida linearmente sobre o valor individual da PLR de
todos os empregados, excetuada a parcela da PLR Social.
Hoje, o mecanismo é estruturado na CCT para que a redução comece pela parcela
complementar e pela Regra Básica, o que faz com que, inicialmente, o impacto se
concentre nos maiores valores de PLR e, consequentemente, nos maiores salários.
A regra proposta pela Caixa vai prejudicar a maioria dos trabalhadores, que
recebem os menores salários.
A proposta da Caixa altera essa lógica. Na prática, empregados de remuneração
menor passam a ser atingidos simultaneamente aos de salários mais elevados.
PLR Social pode ficar abaixo de 4%
Também há mudança na PLR Social. No acordo anterior, a
parcela correspondia a 4% do lucro líquido. A proposta apresentada no dissídio
utiliza a expressão “até 4%” e vincula o pagamento ao desempenho de indicadores
da empresa e de programas de governo.
Isso significa que o normativo passa a admitir o pagamento de percentuais
inferiores a 4%.
Auxílio-creche: nova restrição pode retirar benefício
A minuta também modifica a regra do
auxílio-creche/auxílio-babá.
No ACT anterior, a vedação ao acúmulo estava relacionada ao mesmo dependente
quando ambos os pais eram empregados da Caixa.
Na proposta de sentença, a proibição é ampliada. O benefício deixa de poder ser
acumulado sempre que o outro genitor receber, de qualquer empregador, entidade
ou instituição pública ou privada, benefício de mesma natureza ou finalidade.
Assim, um empregado ou empregada da Caixa poderá perder o auxílio simplesmente
porque o cônjuge recebe benefício semelhante em outra empresa.
A própria minuta estabelece expressamente essa nova restrição.
Greve: Caixa ganha maior poder sobre a compensação
A sentença proposta pela Caixa também disciplina a
compensação dos dias parados.
O prazo previsto é de até 180 dias, mas a Caixa ficaria responsável pela
programação, distribuição e controle das horas, podendo inclusive determinar
que a compensação seja presencial para quem trabalha habitualmente em regime
remoto ou híbrido.
Horas não compensadas ao final do prazo poderão ser descontadas, e o empregado
poderá utilizar banco de horas, APIP ou licença-prêmio para quitar o saldo.
Compromissos anunciados fora da sentença
Em um comunicado enviado aos empregados, a Caixa informou
que manterá alguns compromissos assumidos na última rodada de negociação, ainda
que eles não estejam incorporados à proposta de sentença normativa.
Entre eles estão o pagamento de R$ 3 mil por empregado pela superação do Índice
de Eficiência Operacional, mudanças no Figital e ajustes nas regras do Super
Caixa, como a ampliação de 25% para 50% da premiação vinculada à habilitação
inicial.
São medidas relevantes, mas têm natureza distinta.
Uma coisa é um compromisso administrativo assumido pelo banco. Outra é um
direito incorporado a um Acordo Coletivo de Trabalho, firmado entre empresa e
representação dos trabalhadores, ou a uma sentença normativa com força
jurídica.
Por isso, esses compromissos não eliminam os impactos das cláusulas econômicas,
do Saúde Caixa e da PLR contidos no texto levado ao TST.
Dois anos regulados por decisão judicial
Há ainda uma consequência institucional importante.
A proposta estabelece que a sentença normativa terá vigência até 31 de agosto
de 2028.
Caso o TST adote esse texto como base de sua decisão e não haja acordo
posterior entre as partes, os empregados da Caixa poderão passar praticamente
todo o próximo ciclo negocial sem um ACT específico negociado e assinado com a
empresa, com grande parte das relações coletivas disciplinada diretamente por
decisão judicial.
A diferença não é apenas formal. O ACT é resultado de negociação coletiva e
pressupõe compromissos recíprocos entre empresa e trabalhadores. A sentença
normativa decorre do exercício do poder normativo da Justiça do Trabalho.
Caixa pede julgamento da proposta
Em petição apresentada nesta sexta-feira (25), a Caixa
informou ao TST que considera esgotadas as possibilidades de concessões além
daquelas incluídas em sua proposta de sentença normativa, que, como demonstrado
neste texto, vai prejudicar os trabalhadores.
O banco pediu o prosseguimento do processo sem nova audiência conciliatória e
afirmou que aceitaria encerrar o dissídio por acordo caso as confederações
aceitassem o texto que ele propõe para a sentença normativa de dissídio.
Isso reforça a importância do conteúdo que está sob análise do Tribunal: não se
trata da última proposta negociada em mesa, mas de outro texto, com diferenças
relevantes e potenciais perdas para os empregados.
Contraf-CUT seguirá defendendo a CCT e as reivindicações
aprovadas no 41º Conecef
A Contraf-CUT continuará defendendo no processo de
negociação e no debate judicial os direitos dos empregados e empregadas da
Caixa e as reivindicações aprovadas pela categoria.
A pauta construída para a Campanha Nacional de 2026 reivindica um acordo
coletivo com vigência de 1º de setembro de 2026 a 31 de agosto de 2028 e prevê
a preservação dos direitos existentes, além das melhorias deliberadas pelos
trabalhadores.
Entre as prioridades permanecem a defesa do Saúde Caixa, a ampliação da
responsabilidade da Caixa no custeio do plano, com a retomada do modelo de
custeio 70/30, a isonomia para os contratados pós-2018, a preservação da PLR, a
valorização dos salários e benefícios, avanços nas carreiras e melhores
condições de trabalho.
A Contraf-CUT também reivindicará o abono integral das horas não trabalhadas
durante a paralisação.
Veja abaixo a tabela resumo da demais propostas da Caixa