Saúde Caixa e o adoecimento mental no trabalho
O Brasil vive uma verdadeira crise de saúde mental no
trabalho. Os dados mais recentes do Ministério da Previdência Social comprovam
a gravidade desse cenário: somente em 2025, 546.254 trabalhadores receberam
benefício por incapacidade temporária em razão de transtornos mentais e
comportamentais. Trata-se do maior número de afastamentos já registrado pela
Previdência Social para esse grupo de doenças, evidenciando que o adoecimento
psíquico deixou de ser um problema individual para se consolidar como um dos
maiores desafios das relações de trabalho no país.
Na Caixa Econômica Federal, o tema ganha contornos ainda
mais relevantes. Ano após ano, todas as pesquisas realizadas por nós da
Federação Nacional das Associação da Caixa (Fenae) revelaram que a pressão por
resultados, a cobrança por metas e a insegurança em relação à manutenção de
funções e cargos de comissão têm causado do adoecimento mental nas empregadas e
empregados do banco.
Na última pesquisa nacional realizada pela Fenae, com 3.820
empregados da ativa e aposentados, revelou que 37% dos trabalhadores já
receberam diagnóstico de problemas de saúde mental relacionados ao trabalho.
Ansiedade, estresse, depressão, burnout, síndrome do pânico e transtorno de
estresse pós-traumático aparecem entre os principais problemas enfrentados
pelos bancários
O adoecimento também se reflete nos afastamentos e prejudica
o atendimento à população. Segundo a pesquisa, 58% das licenças médicas
registradas entre os participantes estão relacionadas a problemas de saúde
mental. Outro dado chama atenção: mesmo diagnosticados e medicados, muitos
trabalhadores continuam exercendo suas atividades normalmente, sem afastamento
formal.
Outro aspecto que ganha força no debate é a relação entre o
adoecimento dos empregados e a sustentabilidade do próprio Saúde Caixa, o plano
de saúde dos empregados da Caixa. Diante dos dados alarmantes, defendemos que a
discussão sobre o financiamento do plano não pode ser dissociada das condições
de trabalho dentro do banco.
Entendemos que a relação entre estes dois fatores está
diretamente ligada. Se de um lado pesquisas recentes mostram índices elevados
de adoecimento mental entre os empregados da Caixa, associados à pressão por
metas, ao medo do descomissionamento e à sobrecarga de trabalho, do outro, o
levantamento feito pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos
Socioeconômicos (Dieese) sobre o Saúde Caixa mostra um aumento contínuo da
utilização do plano de saúde dos empregados e dos custos assistenciais.
O raciocínio é simples: se o ambiente organizacional da
Caixa está contribuindo para o adoecimento dos trabalhadores, é natural que
haja maior demanda por atendimento médico, tratamentos, acompanhamento
psicológico e outras formas de assistência à saúde.
Diante destas observações, cabe a Caixa, além de adotar
medidas para prevenir o adoecimento, também deve assumir maior responsabilidade
pela sustentabilidade do Saúde Caixa. Mais do que prestar assistência médica, o
fortalecimento do plano de saúde é uma forma de reparar, ainda que
parcialmente, os impactos provocados por um modelo de gestão que tem sido
apontado como fator de risco para a saúde física e mental dos bancários.
Apesar de números mostrarem a relação tênue entre
adoecimento mental causado pelo modelo de trabalho adotado pelo banco e o
aumento no número de atendimento do plano de assistência médica, a gestão do
Saúde Caixa anda na contramão desse entendimento.
Prova disso é que os últimos estudos apresentados pelo
Dieese revelam que o plano enfrenta um desequilíbrio estrutural que vem sendo
agravado ao longo dos últimos anos. Entre os fatores apontados estão o
envelhecimento da carteira, a inflação médica e as limitações impostas pelo
teto de custeio de 6,5% da folha salarial, instituído em 2017.
As análises demonstram que, enquanto os custos assistenciais
cresceram de forma acelerada, a participação da Caixa no financiamento do plano
deixou de acompanhar essa evolução, aumentando gradativamente a parcela arcada
pelos beneficiários.
As projeções apresentadas pela própria Caixa indicam que o
modelo atual tende a produzir déficits crescentes até 2030. Em contrapartida,
simulações realizadas pelo Dieese apontam que a retomada do modelo 70/30 será
essencial para restabelecer o equilíbrio financeiro do plano. Além de garantir
a sustentabilidade do Saúde Caixa e pôr fim ao déficit existente, essa mudança
garantiria um melhor atendimento aos usuários do plano, principalmente com o
crescimento do adoecimento mental causado pelo modelo de trabalho adotado pela
Caixa.
Mais do que nunca é bom lembrar que de os fatores
organizacionais contribuem para o adoecimento, a Caixa não pode limitar sua
atuação ao tratamento das consequências, mas, sim, enfrentar as causas do
problema e assumir sua parcela de responsabilidade na proteção da saúde dos
seus empregados e empregadas. A retomada do modelo 70X30 é mais uma medida
fundamental para reparar os danos causados à saúde mental dos empregados causados
durante as funções exercidas no ambiente bancário.
*Por Sergio Takemoto, presidente da Fenae