Campanha Nacional: movimento sindical cobra aumento real, diante do alto nível de lucratividade dos bancos
Nesta quinta-feira (30), o Comando Nacional das Bancárias e
dos Bancários apresentou à Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) as
reivindicações específicas sobre as cláusulas econômicas, ou seja, por aumento
real nos salários, Participação nos Lucros e Resultados (PLR), vales refeição e
alimentação, entre outros itens relacionados à remuneração.
O encontro se estendeu o dia inteiro, porque no retorno sobre as reivindicações
de saúde, a Fenaban apresentou propostas que atacaram o direito da categoria,
previsto na Cláusula 29, da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT).
Cláusulas econômicas
Em 2025, juntos os cinco maiores bancos lucraram R$ 124
bilhões. Considerando todo o setor, o lucro líquido registrado foi de R$ 171
bilhões. No mesmo ano, o patrimônio líquido do setor bancário atingiu o
montante de R$ 1,2 trilhão, valor 25 vezes maior do que a soma do patrimônio
líquido dos setores eletroeletrônica e mecânica (R$ 48 bilhões), que ocupam os
primeiros lugares no ranking dos mais rentáveis do país.
Além disso, a rentabilidade média dos bancos, a partir do período pós-pandemia,
ficou em média 2,3 vezes acima da taxa básica de juros do Brasil (Selic),
reconhecida como a mais elevada do mundo, e 3 vezes acima da inflação.
"Esses são dados que apontam para a perfeita capacidade
dos bancos de atender as nossas reivindicações por aumento real na remuneração", destacou
a coordenadora do Comando Nacional, Juvandia Moreira.
Dados levantados pelo Dieese mostram que:
- Os vales alimentação e refeição vem acumulando perdas nos últimos
anos, sendo -13% no VA, entre 2019 e 2025, e -3,7% no VR, entre 2023 e 2025.
"Para que o vale alimentação retome o mesmo poder de compra que tinha em
setembro de 2019, em relação à cesta básica, seria necessário um reajuste de
cerca de 40% no valor atual, o que elevaria o valor mensal de R$ 924,47 para R$
1293,73", destacou a coordenadora do Comando Nacional, Juvandia Moreira.
- Redução com despesas de pessoal: Desde 2016, as despesas dos bancos
com a folha de pagamento (salário, PLR, VA/VR e outros itens de remuneração)
caíram 7%. "Separando a PLR dessa conta, a queda foi ainda maior:
11%", registrou Ramon Peres, atual presidente do Seeb-BH.
- Distribuição cada vez menor de PLR: apesar de a Convenção Coletiva
de Trabalho (CCT) da categoria determinar que os bancos distribuam até 15% de
seus lucros, em 2025, somente a Caixa alcançou esse percentual, e o Banco do
Brasil se aproximou, com 11%.
Além disso, de 1995 para 2025, os três maiores bancos privados reduziram o
percentual de distribuição do lucro, a título de PLR, de dois dígitos para, em
média, 5,9%.
- Adoção de um piso para os trabalhadores em TI e, para as funções de
entrada na categoria em geral, o "Salário Mínimo Necessário do
Dieese" (R$ 7.999,44).
"O valor de piso salarial que estamos propondo não está além da capacidade
que o setor bancário tem de cobrir suas despesas com pessoal”, destacou a
também coordenadora do Comando Nacional, Neiva Ribeiro.
Aumento real é prioridade para categoria
A Consulta Nacional dos Bancários, deste ano, registrou que
o aumento real nos salários é prioridade para 93% da categoria, seguido do
aumento da PLR, com 63%, e do reajuste maior no vale-refeição (VR) e
vale-alimentação (VA), com 51%.
“Se do lado patronal estamos falando do setor altamente rentável do país, do
lado dos trabalhadores bancários estamos falando de recursos com os quais nos
alimentamos, pagamos nossa moradia, nosso transporte, da garantia do
provimento, do cuidado e educação, não somente nosso, mas de nossas famílias”,
destacou Carlos Eduardo Bezerra Marques (Cadu), presidente da Fetrafi/NE. “Então,
os itens postos nas cláusulas econômicas que estamos defendendo não tem como
objetivo somente recompor o poder de compra das bancárias e dos bancários, mas
também o poder de manutenção das necessidades inalienáveis à nossa
sobrevivência e das nossas famílias”, reforçou.
Já o dirigente da Feeb-BA/SE, Hermelino Neto, destacou que a remuneração média
per capita anual paga à diretoria Estatutária (altos executivos) pelos três
maiores bancos privados do país será de R$ 12,5 milhões em 2026. “Valor
mais de 120 vezes maior do que a remuneração anual da função de escriturário
(salário, 13º, férias, tickets, PLR)”, completou.
Fenaban deixa respostas para próxima rodada
Após ouvir os dados apresentados pela representação dos
bancários e as reivindicações sobre as cláusulas econômcias, a Fenaban informou
que irá analisar as propostas apresentadas pelo Comando Nacional dos Bancários
e apresentar um retorno nas próximas rodadas de negociação.
Retorno sobre a mesa de Saúde e Condições de Trabalho
Na parte final da mesa de negociação desta quinta, a Fenaban
apresentou retorno sobre as reivindicações de saúde e condições de trabalho,
apresentadas pelos trabalhadores na rodada passada (21 de julho).
Entre as reivindicações dos representantes está a participação dos
trabalhadores na implementação da NR-1 (Norma Regulamentadora nº1), com o
mapeamento dos riscos psicossociais e acesso às informações de saúde na
categoria, a partir de planos de ações desenvolvidos junto às Comissões de
Organização dos Empregados (COEs) e à mesa única de negociação.
A Fenaban sinalizou disposição para debater, periodicamente, o Programa de
Gerenciamento de Riscos (PGR) nas COEs e na mesa mesa única. “Consideramos
um avanço e esperamos que estes debates resultem em medidas para prevenir o
adoecimento”, avaliou Juvandia Moreira, que também é presidenta da Contraf-CUT.
No entanto, em seguida, a Fenaban tornou o debate extenuante, apresentando uma
série de argumentos que já sustentava, de que o alto índice de afastamento de
bancários estaria ligado a multifatores, principalmente à facilidade de se
obter atestados médicos. Dando a entender a falta de boa-fé por parte dos
trabalhadores.
A Fenaban questiona também a capacidade dos médicos que fornecem atestados, em
função do desconhecimento da realidade do trabalho bancário e questionou a
sustentação científica para os dados sobre afastamento na categoria, quando
relaiconados ao modelo de gestão por metas.
“Não compactuamos com fraudes. Também não podemos pautar o debate a partir de
má-fé, seja de alguns médicos ou de trabalhadores. Entidades internacionais,
como OIT (Organização Internacional do Trabalho), OMS (Organização Mundial da
Saúde), e nacionais, como Ministério do Trabalho e Emprego e Ministério Público
do Trabalho, afirmam que a sobrecarga no trabalho está diretamente relacionada
ao adoecimento mental dos trabalhadores”, completou Juvandia Moreira.
Em seguida, os bancos atacaram diretamente a Cláusula 29, da CCT, que trata da
complementação salarial para os afastados, com duração de até dois anos, com
possibilidade de renovação.
No lugar, a Fenaban propôs a redução desse período para apenas 45 dias. E,
após esse período, os médicos do trabalho do banco é que iriam decidir se o
trabalhador continuaria ou não afastado.
Em resposta, o Comando Nacional registrou que não aceita retirada de direitos.
Em seguida, reforçou que, para melhorar as condições de trabalho e qualidade de
vida da categoria, são necessárias medidas mitigação dos riscos que reduzam a
sobrecarga, incluindo mudanças no modelo de gestão, discussão de metas e a
implantação da jornada semanal de quatro dias de trabalho e três de descanso
(4x3), sem redução de salários e de direitos.
Os bancos recuaram da proposta sobre a Cláusula 29, e disseram que vão
apresentar outra contraproposta nas próximas rodadas.
Reforço da defesa da mesa única
O encontro foi encerrado com a defesa, por parte do Comando
Nacional, da manutenção da mesa única de negociações, “dada a sua
relevância histórica na construção e garantia de direitos na categoria”,
destacou Juvandia Moreira.
Nos últimos dias, entidades sindicais de todo o país reforçaram as
manifestações nas agências e nas redes sociais em defesa da mesa única. “É
a unidade na negociação que protege os direitos de todos os bancários, sejam de
bancos públicos ou privados. E, sem a manutenção dessa unidade, não
conseguiremos avançar, sobretudo diante dos desafios impostos pelos avanços
tecnológicos e da reestruturação do sistema financeiro”, concluiu.
Próxima negociação
A próxima mesa de negociação está agendada para ocorrer na
terça, 4 de agosto, mantendo remuneração e Cláusulas Econômicas como tema.
“Cobramos que a Fenaban apresente, já no próximo encontro, uma proposta
concreta que atenda às necessidades e expectativas da categoria em relação às
cláusulas econômicas, saúde e condições de trabalho. Os bancários e bancárias
devem ficar atentos ao site e redes sociais do Sindicato para receber nossas
convocações para plenárias e outras ações de mobilização”, arrematou Neiva
Ribeiro.
Fonte: Contraf-CUT

