Mais regulação, menos fintechs: pedidos de abertura no BC caem de 15 para 2 por mês
As novas regras impostas pelo Banco Central (BC) já começam
a produzir efeitos no mercado financeiro. Segundo reportagem do portal
Finsiders Brasil, após a adoção de novos limites mínimos de capital exigidos
para o funcionamento de fintechs, os pedidos de abertura dessas instituições
caíram de cerca de 15 para apenas duas solicitações por mês.
Os dados foram apresentados pelo diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino,
durante a divulgação do Relatório de Estabilidade Financeira do segundo
semestre de 2025, no dia 25 de maio. O novo limite mínimo de capital para
fintechs e Instituições de Pagamento saltou de R$ 1 milhão para R$ 9,2 milhões.
A exigência foi oficializada pelo BC e pelo Conselho Monetário Nacional por
meio da Resolução Conjunta nº 14.
A reportagem aponta ainda que 679 das 1.751 instituições financeiras mapeadas
pelo Banco Central ainda não atendem aos novos requisitos mínimos de capital,
que deverão ser integralmente cumpridos até janeiro de 2028. Entre os segmentos
mais afetados estão as Instituições de Pagamento, as Sociedades de Crédito
Direto e as Sociedades de Crédito ao Microempreendedor.
Segundo o Banco Central, as medidas têm como objetivo fortalecer a capacidade
das instituições de absorver riscos operacionais e tecnológicos, reduzir riscos
sistêmicos e aproximar a regulamentação brasileira dos padrões internacionais.
Para o movimento sindical bancário, a queda nos pedidos de abertura de fintechs
demonstra que o setor começa a se adaptar a um ambiente regulatório mais
compatível com os riscos que essas empresas assumem ao operar no sistema
financeiro.
“Não se trata de impedir a inovação, mas de assegurar que ela aconteça com
responsabilidade. A regulação é fundamental para garantir segurança aos
usuários, estabilidade ao sistema financeiro e concorrência baseada em regras
equivalentes para todos os participantes. Nessas regras, também incluímos os
direitos trabalhistas dos profissionais do setor. Por isso, lutamos para que os
trabalhadores das fintechs sejam reconhecidos como bancários, tendo acesso a
todos os direitos da categoria”, afirma a coordenadora do Comando Nacional dos
Bancários, Neiva Ribeiro.
Expectativas
A avaliação do movimento sindical é compartilhada por Moisés Marques,
professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e
doutor em Políticas Internacionais. Segundo Marques, a exigência de maior
capitalização tende a reduzir riscos e estimular um processo de consolidação do
mercado.
"A partir do momento em que se exige uma maior capitalização para fazer
frente aos riscos da operação, você começa a ter uma junção de empresas. Foi o
que ocorreu, por exemplo, com as cooperativas há alguns anos. Houve uma
explosão de cooperativas de crédito e, posteriormente, sobreviveram apenas as
que tinham melhor adaptação e capitalização. Acredito que com as fintechs
acontecerá algo muito parecido", avalia o professor.
Promessas não cumpridas
Moisés Marques questiona se os principais objetivos que justificaram a abertura
do mercado às fintechs foram plenamente alcançados. Segundo ele, ainda
persistem dúvidas sobre a ampliação do acesso ao crédito e, principalmente,
sobre a redução dos juros cobrados da população.
"O que se esperava dessas organizações quando se abriu o mercado para esse
chamado 'choque de competitividade' era termos mais acesso das pessoas ao
sistema financeiro. Isso, na verdade, aconteceu muito mais em função de
instrumentos como o Pix. Se esperava ainda um crédito mais acessível, o que também
nos causa dúvidas, já que o crédito ainda me parece muito caro e relativamente
inacessível para alguns setores da população. E o maior efeito esperado, que
era a queda da taxa de juros nas operações e da taxa básica da economia, também
não se materializou", observa o professor.
Fonte: Seeb/SP, com edição de SINTRAFI Barretos
