Representantes dos trabalhadores de todas as regiões do
Brasil participaram, nesta sexta-feira (19), do Encontro Nacional dos
Funcionários do Itaú Unibanco, realizado em São Paulo. O evento reuniu 88
delegados e delegadas, além de 20 convidados, para debater a conjuntura
política e econômica, os impactos da Inteligência Artificial (IA) sobre o
emprego, o andamento das negociações com o banco e as propostas específicas
para a Campanha Nacional dos Bancários de 2026.
“Nosso encontro foi muito positivo, principalmente por aprovar uma pauta de
reivindicações bastante completa, com propostas para enfrentar os principais
problemas que estamos vivenciando no Itaú”, avaliou a coordenadora nacional da
COE/Itaú, Valeska Pincovai. “A união demonstrada aqui vai fazer a diferença, e
tenho certeza de que saímos ainda mais fortalecidos para continuar a luta e a
defesa dos nossos direitos”, completou.
Valeska destacou que a principal preocupação dos trabalhadores atualmente é a
saúde, diante do aumento dos casos de adoecimento na categoria. “A cobrança
pelo cumprimento das metas, o assédio moral e o medo de perder o emprego diante
do fechamento de tantas agências têm adoecido os funcionários. E o banco demonstra
um descaso total em relação a isso, ao dificultar o afastamento dos
trabalhadores que necessitam de tratamento de saúde”, afirmou.
A coordenadora também chamou atenção para a situação dos aposentados e as
dificuldades de permanência no plano de saúde após o encerramento da vida
laboral. “Outra luta importante é a questão dos aposentados. Quando o
trabalhador se aposenta, muitas vezes não consegue manter o plano de saúde em
razão dos custos, o que representa uma injustiça depois de tantos anos de dedicação
ao banco”, ressaltou.
Ao final do encontro, os participantes aprovaram a pauta de reivindicações
específicas, incorporando todas as propostas apresentadas pelas federações. O
documento unificado será entregue ao Itaú em 2 de julho, marcando o início das
negociações específicas da Campanha Nacional dos Bancários de 2026.
Cenário político e os desafios para a democracia
Na primeira mesa do Encontro Nacional, a presidenta do
Instituto Lula e ex-presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco
e Região, Ivone Silva, iniciou sua análise de conjuntura ressaltando a
importância da Campanha Nacional dos Bancários. No entanto, destacou que, em
2026, a missão da categoria ultrapassa a defesa de suas pautas específicas. “Nós
sabemos que defender os nossos direitos passa por defender a democracia no
Brasil e garantir a eleição de um governo democrático que esteja ao lado dos
trabalhadores”, afirmou.

Segundo Ivone, essa tarefa se dará em um cenário complexo.
Ao analisar a conjuntura global, ela apontou que o avanço da extrema direita no
mundo e no Brasil está associado às múltiplas crises do capitalismo, que
desmontaram o Estado de bem-estar social e aprofundaram as desigualdades. “Com
isso, há uma perda generalizada da confiança nas instituições democráticas,
como o governo e os sindicatos. E essa descrença tem impactos diretos sobre o
governo Lula”, observou.
“Mesmo com uma conjuntura marcada por avanços e bons índices econômicos no
terceiro mandato de Lula, as pesquisas mostram que 42% das pessoas consideram
que a economia brasileira está pior do que há seis meses. Ou seja, o governo
tem resultados sólidos, mas não consegue repetir a experiência subjetiva de
mobilidade social vivida nos dois primeiros mandatos. O desempenho econômico
não se traduz automaticamente em popularidade”, acrescentou.
Lucros recordes e redução da estrutura física do banco
A segunda mesa teve início com a apresentação da economista
do Dieese e assessora da COE/Itaú nas negociações com o banco, Cátia Uehara,
que analisou os resultados de 2025 e do primeiro trimestre de 2026.
Segundo a economista, os cinco maiores bancos em operação no Brasil registraram,
juntos, lucro próximo de R$ 124 bilhões em 2025. Nesse cenário, o Itaú se
destacou ao alcançar lucro recorde de R$ 46,8 bilhões, crescimento de 13,1% em
relação ao ano anterior. Nos três primeiros meses de 2026, o banco já acumula
lucro de R$ 12,2 bilhões.
Ao abordar a evolução dos postos de trabalho e da rede física, Cátia ressaltou
que o sistema financeiro vem reduzindo sua estrutura sem comprometer a
lucratividade. “Os bancos estão conseguindo apresentar resultados bastante
significativos com menos pessoas. Em apenas 12 meses, Banco do Brasil e bancos
privados fecharam quase 13 mil postos de trabalho no país”, destacou.
Segundo ela, somente a holding Itaú extinguiu 3.535 postos de trabalho entre
2024 e 2025, encerrando dezembro de 2025 com um quadro de 82.693 trabalhadores.
A economista também destacou que o Itaú fechou 2.439 agências em dez anos e que
a instituição mantém mais de 700 iniciativas de Inteligência Artificial
generativa em desenvolvimento. “Os processos implementados até o momento já geraram
a redução de 300 mil horas de trabalho pelos agentes de IA”, observou.
Inteligência Artificial, monitoramento digital e as
demissões em massa
Após a análise do balanço, a assessora jurídica do Sindicato
dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região e da COE/Itaú, Cynthia Valente,
abordou os impactos da Inteligência Artificial sobre o emprego e relembrou o
processo de demissões em massa ocorrido em setembro de 2025. “Fomos
surpreendidos por um processo de demissão em massa no Itaú, que utilizou
ferramentas digitais para monitorar seus trabalhadores e alegou baixa aderência
como justificativa para desligar mais de mil bancários, a maior parte deles lotados
no Ceic, em São Paulo”, resumiu.
Segundo Cynthia, não houve negociação prévia com a representação dos
trabalhadores e, diante da intransigência do banco, foi necessário recorrer ao
Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região. “O Itaú insistia que os
trabalhadores não estavam trabalhando, especialmente aqueles que estavam em
trabalho remoto. Como a negociação não avançou, tivemos de adotar medidas mais
firmes”, explicou.
A mediação resultou em um acordo aprovado em assembleia por 89,3% dos
participantes e garantiu indenizações para os trabalhadores desligados.
“Consideramos uma ação bastante vitoriosa, porque em uma ação coletiva os
trabalhadores dificilmente teriam uma resposta tão rápida ou mesmo a garantia
de receber esses valores”, avaliou.
Negociações permanentes e as prioridades da campanha
A terceira mesa do encontro foi dedicada ao andamento das
negociações permanentes com o Itaú. Valeska Pincovai apresentou as principais
reivindicações debatidas com o banco, com destaque para o fechamento de agências
e os programas de avaliação de desempenho Gera e Evolui. “Em síntese, temos
reiterado nas negociações nossas reivindicações por garantia do emprego e pelo
fim do fechamento de agências; por mais saúde mental e pelo combate às metas
abusivas e ao assédio moral; além de condições dignas de trabalho,
transparência e valorização dos trabalhadores”, resumiu.
Valeska também apresentou os avanços garantidos no Acordo Coletivo de Trabalho
renovado em janeiro de 2026 e os resultados obtidos pela Comissão de
Conciliação Voluntária após as demissões em massa ocorridas em 2025.
Saúde, Gera e os grupos de trabalho específicos
Na sequência, foram apresentados informes sobre o andamento
dos grupos de trabalho específicos. A coordenadora do GT de Saúde, Rosângela Lorenzetti,
fez um balanço das discussões e dos encaminhamentos em curso, enquanto os
representantes da COE atualizaram os participantes sobre as negociações
relacionadas ao programa Gera e aos demais temas em debate permanente com o
banco.
As discussões reforçaram a importância da mesa de negociação permanente e da
mobilização dos trabalhadores para enfrentar os desafios colocados pela
reestruturação do banco, pelo avanço da Inteligência Artificial e pela
necessidade de garantir emprego, saúde e melhores condições de trabalho para
todos os funcionários do Itaú.
Fonte: Contraf-CUT