Conjuntura internacional, guerra tecnológica e desafios do desenvolvimento pautam segundo dia da 28ª Conferência Nacional dos Bancários
A análise da conjuntura internacional e dos desafios para o
desenvolvimento do Brasil foi tema da primeira mesa do segundo dia da 28ª Conferência
Nacional das Bancárias e dos Bancários, realizada na manhã deste sábado (20),
no Hotel Holiday Inn Parque Anhembi, em São Paulo.
Com o tema “Conjuntura: debatendo os rumos do Brasil e da classe trabalhadora”,
a atividade foi coordenada por José Eduardo Rodrigues Marinho, presidente do
Sindicato dos Trabalhadores em Empresas do Ramo Financeiro no Estado do Ceará.
A mesa contou ainda com a participação de Claudio Merçon Vieira,
secretário-geral do Sindicato dos Bancários do Espírito Santo; Elvira Ribeiro
Madeira, secretária-geral do Sindicato dos Bancários do Ceará; e Cristiane
Paula Zacarias, presidenta do Sindicato dos Bancários de Curitiba e Região.
O convidado para o debate foi o economista, professor, empresário e escritor
José Kobori, que apresentou uma análise sobre as transformações geopolíticas em
curso e os impactos sobre a economia mundial e o desenvolvimento dos países.
Nova ordem mundial, disputa tecnológica e riscos
geopolíticos
Ao analisar as transformações em curso na economia global,
José Kobori afirmou que política e economia são indissociáveis e que as
mudanças na ordem mundial sempre foram impulsionadas por disputas de poder e
interesses econômicos. “Política é economia e economia é política. Não existe
economia separada das grandes decisões políticas e geopolíticas”, afirmou.
Segundo o economista, a reorganização do mundo após a Segunda Guerra Mundial
deu origem a uma ordem liderada pelos Estados Unidos, consolidada
posteriormente pelo acordo de Bretton Woods. Já a partir das décadas de 1970 e
1980, a chamada revolução neoliberal promoveu a liberalização financeira e
abriu caminho para uma nova fase do capitalismo. “A revolução neoliberal
iniciou esse período que conhecemos como capitalismo financeiro. O dinheiro
passou a gerar dinheiro, e a economia real foi perdendo espaço para a
especulação e para os ganhos financeiros”, explicou.
Na avaliação de Kobori, a abertura dos mercados e a desregulamentação
financeira fizeram com que bancos e fundos de investimento passassem a exercer
um papel predominante nas economias ocidentais, enquanto as grandes corporações
passaram a priorizar a valorização das ações e os retornos aos investidores em
detrimento da produção e da inovação.
Para o economista, a própria estratégia adotada pelos Estados Unidos contribuiu
para esse processo. Segundo ele, durante a Guerra Fria, os norte-americanos
estimularam o desenvolvimento de países asiáticos para conter a influência da
União Soviética. “Quem destruiu a economia industrial norte-americana foram os próprios
Estados Unidos. E foram eles que ajudaram a economia chinesa e outros países da
Ásia a se desenvolverem, porque, naquele momento, o grande adversário era a
União Soviética”, disse.
O caminho chinês
Kobori destacou que a ascensão da China não foi fruto do
acaso, mas resultado de um amplo debate interno e de um planejamento de longo
prazo. “Os chineses estudaram todos os economistas. Houve um grande debate na
China sobre qual seria o melhor caminho para o desenvolvimento do país”,
afirmou.
Segundo ele, os chineses rejeitaram a cartilha neoliberal e seguiram uma
trajetória gradual de desenvolvimento, priorizando primeiro a agricultura,
depois a industrialização, os investimentos em ciência e tecnologia e, somente
após consolidar sua capacidade produtiva, o fortalecimento da defesa nacional.
“A China construiu primeiro sua capacidade produtiva e tecnológica. Sua
expansão econômica não se dá pela imposição cultural ou religiosa, mas pelas
relações comerciais”, observou.
Kobori ressaltou que, ao contrário dos países que seguiram as recomendações do
Consenso de Washington, a China manteve o controle estatal sobre setores
estratégicos e utilizou o investimento público como motor do crescimento
econômico. “A China não seguiu a cartilha neoliberal. Enquanto vários países se
desindustrializaram, ela e a Coreia do Sul fizeram o caminho contrário e se
industrializaram”, afirmou.
O economista também criticou as restrições ao gasto público e defendeu o papel
do Estado no desenvolvimento. “Se você proíbe o Estado de gastar dinheiro, sua
economia não vai crescer nunca. Essa é uma cartilha que os Estados Unidos
disseminaram pelo mundo para manter a hegemonia, mas a China não seguiu esse
caminho”, disse.
Segundo Kobori, o país asiático utiliza há décadas o déficit fiscal como
instrumento para ampliar sua capacidade produtiva. “Faz quase 40 anos que a
China gasta mais do que arrecada, porque entende que é isso que permite ao país
crescer e ampliar sua capacidade produtiva”, ressaltou.
Nova ordem mundial e desafios para o Brasil
Na avaliação do professor, as transformações em curso
apontam para uma transição da hegemonia unipolar norte-americana para uma ordem
multipolar, na qual a China desponta como principal potência econômica do
século XXI. “O mundo está mudando de eixo. A guerra hoje é tecnológica,
envolvendo inteligência artificial, semicondutores e o domínio das plataformas
digitais. Quem controlar essas tecnologias terá vantagem econômica e
geopolítica”, afirmou.
Kobori alertou ainda que processos de mudança de hegemonia costumam ser
marcados por tensões e conflitos. “Nós estamos vivendo uma transição histórica.
E toda transição de poder gera tensões. Existe, inclusive, um grande risco de
surgirem novos conflitos, especialmente na Europa, porque as mudanças na ordem
mundial raramente ocorrem de forma pacífica”, alertou.
Ao abordar o caso brasileiro, o economista afirmou que o país perdeu a
oportunidade de se consolidar como potência industrial e tecnológica. Segundo
ele, o Brasil dos anos 1980 possuía um parque industrial mais robusto do que o
da China e da Coreia do Sul, mas acabou ficando para trás. “O Brasil era mais
industrializado do que a China e a Coreia do Sul nos anos 1980. Depois da
revolução neoliberal, nós nos desindustrializamos”, afirmou.
Entre os principais entraves ao desenvolvimento brasileiro, Kobori apontou a
predominância do capital financeiro sobre o setor produtivo, a concentração da
economia na exportação de commodities e a falta de investimentos em ciência,
tecnologia e educação. “Não existe país de primeiro mundo que tenha se
desenvolvido apenas exportando soja e carne. O desenvolvimento exige indústria,
ciência, tecnologia e planejamento de longo prazo”, concluiu.
Dólar, Pix e soberania nacional
José Kobori também abordou a hegemonia do dólar e afirmou
que, embora a moeda norte-americana continue sendo central para a economia
mundial, o processo de transição para uma ordem multipolar tende a reduzir
gradualmente sua predominância.
Segundo o economista, a perda da liderança absoluta dos Estados Unidos não
significa o desaparecimento do dólar, mas uma mudança lenta e complexa na
arquitetura financeira internacional.
Kobori também destacou o Pix como uma ferramenta estratégica para a soberania
nacional e digital do Brasil. Na avaliação do professor, o sistema de
pagamentos desenvolvido pelo Banco Central deixou de ser apenas um meio de
transferência de recursos para se tornar uma infraestrutura essencial para o
país. “O Pix é uma questão de soberania nacional. O Brasil passou a ter uma
infraestrutura própria de pagamentos, reduzindo a dependência de empresas
estrangeiras e mantendo o controle sobre dados e transações financeiras”,
afirmou.
Segundo Kobori, em um cenário em que os dados representam poder econômico,
possuir uma estrutura nacional de pagamentos significa preservar informações
estratégicas e reduzir a dependência de grandes empresas internacionais.
O economista observou ainda que o sucesso do sistema brasileiro gerou reações
de empresas estrangeiras e pode se tornar alvo de pressões comerciais e
geopolíticas. “A disputa pelo controle dos meios de pagamento e dos dados é uma
disputa por soberania. O Pix deixou de ser apenas uma ferramenta financeira
para se tornar uma questão estratégica para o país”, destacou.
A 28ª Conferência Nacional das Bancárias e dos Bancários segue até domingo
(21). Na sequência da programação deste sábado, a economista do Dieese Vivian
Machado apresentou os resultados da Consulta Nacional dos Bancários 2026, que
subsidiam a construção das reivindicações da categoria para a Campanha Nacional
deste ano.

