CCJ aprova PEC da captura do Banco Central pelo “mercado”
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal
aprovou na quarta-feira (10) a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 65/2023,
que altera o regime jurídico do Banco Central do Brasil (BC) e amplia
significativamente sua autonomia administrativa, orçamentária e financeira. A
matéria agora segue para votação em dois turnos no Plenário do Senado antes de
ser encaminhada à Câmara dos Deputados.
A proposta, apresentada pelo senador Vanderlan Cardoso (PSD-GO), transforma o
Banco Central em uma instituição de natureza especial, organizada sob a forma
de empresa pública, sem vinculação a ministérios ou a qualquer outro órgão da
administração pública federal. O texto prevê autonomia técnica, operacional,
administrativa, orçamentária e financeira, além de permitir que a instituição
tenha orçamento próprio e utilize receitas oriundas da chamada senhoriagem para
custear suas atividades.
Segundo o texto da PEC, o Banco Central passaria a atuar sem tutela ou
subordinação hierárquica ao Poder Executivo, mantendo apenas mecanismos de
supervisão pelo Congresso Nacional e pelos órgãos de controle.
Para a Contraf-CUT, a proposta representa um grave risco para o interesse
público e para a soberania nacional, ao aprofundar um processo de
distanciamento do Banco Central em relação ao controle democrático exercido
pela sociedade por meio dos governos eleitos.
“O Banco Central já possui autonomia operacional desde 2021. O que está sendo
proposto agora vai muito além disso. A PEC cria uma estrutura praticamente
desvinculada do Estado brasileiro e amplia o risco de captura da autoridade
monetária pelos interesses do mercado financeiro. Estamos falando de um órgão
que define juros, influencia o emprego, o crédito, o crescimento econômico e a
vida de milhões de trabalhadores. Essas decisões precisam estar subordinadas ao
interesse público e não aos interesses do sistema financeiro”, afirma o
secretário de Relações do Trabalho da Contraf-CUT, Jeferson Meira, o Jefão.
Críticas de especialistas e entidades
A aprovação da proposta ocorre em meio à mobilização de entidades sindicais,
economistas e organizações da sociedade civil que defendem o arquivamento da
PEC. Entre os principais questionamentos está a transformação do Banco Central
em uma instituição com características próprias de empresa pública, dotada de
autonomia patrimonial, financeira e orçamentária e desvinculada da estrutura
tradicional da administração pública federal.
As críticas apontam que a medida pode reduzir mecanismos de controle social e
aumentar a influência do setor financeiro privado sobre as decisões da
autoridade monetária. Também há preocupação com a possibilidade de
flexibilização das regras aplicáveis aos servidores da instituição e com a
criação de um regime jurídico diferenciado em relação ao restante do serviço
público.
Jefão destaca que o debate vai além de uma discussão técnica sobre política
monetária. “O que está em disputa é quem controla uma das instituições mais
importantes do país. Não existe neutralidade quando se decide o nível dos juros,
a oferta de crédito ou a regulação do sistema financeiro. Essas decisões afetam
diretamente o emprego, a renda, os investimentos públicos e privados e a
capacidade do Estado de promover desenvolvimento. Retirar cada vez mais esses
temas do controle democrático significa concentrar ainda mais poder nas mãos do
mercado financeiro”, critica.
Banco Central e projeto de país
A Contraf-CUT também avalia que a PEC segue uma lógica que vem sendo defendida
por setores do mercado financeiro desde a aprovação da autonomia operacional do
Banco Central, em 2021.
Na avaliação da entidade, a proposta enfraquece a capacidade do Estado
brasileiro de coordenar políticas econômicas voltadas à geração de empregos, ao
desenvolvimento produtivo e à redução das desigualdades sociais.
“O Banco Central não pode funcionar como um ente isolado, desconectado do
projeto de desenvolvimento do país. A política monetária precisa dialogar com
os objetivos nacionais de crescimento econômico, geração de emprego,
fortalecimento da indústria e combate às desigualdades. A PEC 65 caminha na
direção oposta e aprofunda a financeirização das decisões econômicas”, afirma
Jefão.
Próximos passos
Após a aprovação na CCJ, a PEC 65/2023 ainda precisará ser votada em dois
turnos pelo Plenário do Senado. Se aprovada, seguirá para análise da Câmara dos
Deputados.
O movimento sindical bancário, encabeçado pela Contraf-CUT, continuará
acompanhando a tramitação da proposta e atuará junto às centrais sindicais,
entidades representativas dos trabalhadores e parlamentares para barrar a
aprovação definitiva da matéria.
Fonte: Contraf-CUT, com edição de SINTRAFI Barretos
“A sociedade precisa compreender que essa PEC não trata apenas da estrutura
administrativa do Banco Central. Ela trata de quem terá influência sobre
decisões que impactam diariamente o emprego, o crédito, o custo de vida e o
futuro do país. Por isso, defendemos que a proposta seja rejeitada e
arquivada”, conclui Jefão.
