Operação contra lavagem de dinheiro reforça alerta do Sindicato por maior regulação das fintechs
O Grupo de Atuação
Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São
Paulo e a Receita Federal realizaram na manhã de quinta-feira (28) uma nova
fase da Operação Carbono Oculto, que investiga um esquema bilionário de lavagem
de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). As informações foram
divulgadas pelo Ministério Público e publicadas em reportagem do portal G1.
Segundo as autoridades, a ação cumpriu 59 mandados de busca e
apreensão nos estados de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato
Grosso do Sul. Os principais alvos são empresários, operadores logísticos e
laranjas do esquema, que teriam continuado atuando mesmo após operações
anteriores.
Diante das novas revelações, o Sindicato dos Trabalhadores do
Ramo Financeiro de Barretos e Região (SINTRAFI) reforça sua defesa pelo
fortalecimento da regulação do sistema financeiro nacional, especialmente no
que se refere às fintechs. Para o diretor do SINTRAFI, Marco Antônio Pereira, o
caso demonstra a urgência de ampliar os mecanismos de controle sobre o setor.
“Instituições
que movimentam bilhões precisam estar submetidas a fiscalização rígida e total
transparência. A prevenção à lavagem de dinheiro passa por responsabilidade
institucional, controle eficiente do Banco Central e atuação coordenada dos
órgãos de investigação. A ausência de supervisão consistente cria um ambiente
vulnerável, que acaba sendo explorado por organizações criminosas”, destaca o
diretor.
Entenda o caso
De acordo com o Ministério Público de São Paulo e a
reportagem publicada pelo portal G1, a nova etapa da investigação, batizada de
Fluxo Oculto, aponta que fintechs sediadas na Avenida Brigadeiro Faria Lima, em
São Paulo, continuaram sendo utilizadas para ocultar recursos do crime
organizado mesmo após a operação realizada em agosto do ano passado.
A Operação Carbono Oculto investiga um esquema de lavagem de
dinheiro ligado ao PCC, com atuação em toda a cadeia do setor de combustíveis.
Segundo os investigadores, o grupo também utilizava fundos de investimento para
esconder patrimônio ilícito.
Ainda de acordo com o Ministério Público, mesmo após a
deflagração da operação em 2025, o esquema criminoso não foi interrompido. Pelo
contrário: houve aumento do desvio de nafta, solventes petroquímicos
importados, além da abertura de novas empresas de fachada para ocultar os
recursos movimentados ilegalmente.
Relatórios de inteligência financeira identificaram
movimentações suspeitas de quase R$ 26 bilhões e a retomada do uso de fintechs
e plataformas de pagamento como “dutos financeiros” da organização criminosa.
Os promotores afirmam que a facção conseguiu se reorganizar rapidamente,
ampliando as operações e mantendo o mesmo padrão criminoso identificado
anteriormente.
O papel das contas-bolsão
Um dos focos da operação desta quinta-feira foi o acesso às
chamadas contas gráficas vinculadas às contas-bolsão mantidas por fintechs em
bancos tradicionais. Segundo o Ministério Público, as contas-bolsão funcionam
como contas únicas abertas pelas fintechs em bancos tradicionais para
centralizar recursos de diversos clientes. Para o banco, o titular formal da
conta é apenas a fintech, sem identificação individual dos verdadeiros donos
dos valores movimentados.
De acordo com os investigadores, esse modelo criou um “ponto
cego” no sistema de prevenção à lavagem de dinheiro, dificultando o
rastreamento das operações financeiras e permitindo mecanismos de blindagem
patrimonial. Com o acesso às contas gráficas, que são registros internos
mantidos pelas próprias fintechs, os promotores passaram a identificar origem e
destino das transações, além dos reais remetentes e beneficiários dos recursos.
O alerta não vem de hoje
O debate sobre o uso de fintechs pelo crime organizado já
havia sido abordado pelo promotor de Justiça Lincoln Gakiya, integrante do
Gaeco, em entrevista concedida ao Jornal da Globo em janeiro deste ano, repercutida pelos canais do SINTRAFI
Barretos e Região.
Na ocasião, Gakiya afirmou que organizações criminosas
procuram justamente setores com falhas regulatórias para lavar dinheiro. “O
crime organizado procura setores que têm deficiência de regulamentação e de
fiscalização para lavar dinheiro”, afirmou o promotor durante a entrevista.
Segundo ele, algumas fintechs operavam em um “verdadeiro
limbo”, sem serem formalmente reconhecidas como instituições bancárias, apesar
de desempenharem funções semelhantes. Ainda de acordo com Gakiya, investigações
identificaram que facções criminosas passaram a criar suas próprias fintechs
para ocultar patrimônio ilícito.
“Em vez de procurar laranjas e terceiros, seria muito melhor
criar o seu próprio banco. Algumas organizações criminosas, como o próprio PCC,
já tiveram fintechs criadas para lavar o próprio dinheiro. Isso que nos
preocupa: o crime organizado participar da economia formal”, declarou.
Fonte: Seeb/SP, com edição de SINTRAFI Barretos
