Escala 6x1 e jornada de 44h contribuem para a desigualdade de renda no Brasil
Ao contrário do que grupos patronais têm afirmado, o fim da
escala 6x1 (seis dias de trabalho para um de descanso) com redução da jornada
semanal, sem redução salarial, tende a gerar empregos e melhorar o nível geral
de renda da população. É o que revelam estudos do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea), do Departamento Intersindical de Estatística e
Estudos Socioeconômicos (Dieese) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Com base nos dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de
2023, levantamento publicado em fevereiro pelo Ipea apontou que:
- Dos 44 milhões de trabalhadores com vínculos formais, 31,8 milhões (74%)
eram com jornada de 44h semanais;
- A remuneração média para vínculos de 40h era de R$ 6.211 por mês;
- Já a remuneração média para vínculos de 44h de apenas 42,3% desse valor:
R$ 2.627;
- Mais de 83% dos vínculos com até o ensino médio estavam sob a jornada de
44h;
- Essa proporção de trabalhadores com jornada de 44h caía para 53% dos
vínculos entre aqueles com ensino superior completo.
Outro levantamento, do Dieese, que considerou tanto dados da RAIS quanto da
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE, revelou que, em
um ano, pessoas que trabalharam entre 41h e 44h semanais ganharam, em média, R$
39 mil a menos do que aqueles que trabalharam exatamente 40h semanais.
A entidade de pesquisa pontuou ainda que apesar de terem jornadas acima de 40h,
os setores de agropecuária, construção e comércio não praticam os maiores
salários.
Já, de acordo com projeções realizadas pela economista Marilane Teixeira, do
Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) do Instituto de
Economia (IE) da Unicamp, a redução da jornada de 44h para 36h semanais, além
de criar 4,5 milhões de novos empregos, elevaria em cerca de 4% os níveis de
produtividade no Brasil.
Quem ganha com a jornada excessiva?
“Esses são dados que revelam que a escala 6x1 e a jornada
semanal de 44h contribuem para a desigualdade social e de renda no país”,
avaliou a presidenta da Contraf-CUT e vice-presidente da CUT Nacional, Juvandia
Moreira. “As jornadas mais longas estão concentradas entre os
trabalhadores com menor renda, menor escolaridade e que, por causa do pouco
período de descanso, têm menos possibilidades de qualificação e requalificação,
que permitem melhorar a trajetória de vida”, completou.
A dirigente reforçou ainda que a jornada de trabalho extensa contribui para a
concentração de renda, que gera pobreza e exclusão. "Além de tornar
as pessoas mais motivadas e com menor desgaste com o trabalho, a redução da
jornada é uma forma de melhorar o compartilhamento dos ganhos da produtividade
com o conjunto dos trabalhadores", explicou.
Pesquisas contestam relação entre diminuição de jornada e
redução do PIB
Entre as principais críticas de setores patronais contra o
fim da escala 6x1 com a redução da jornada para 40h, sem redução salarial, está
o aumento dos custos dos empresários com a hora de trabalho que,
consequentemente, elevaria os custos gerais de produção, com impactos na
inflação e possível aumento do desemprego. Um levantamento encomendado pela
Confederação Nacional das Indústrias (CNI) à FGV-Ibre fala inclusive em queda
no Produto Interno Bruto (PIB).
Mas todas essas preocupações também são contestadas por entidades de pesquisa.
O Ipea, por exemplo, calculou que a redução da jornada para 40h semanais elevaria
o custo médio da hora de trabalho em cerca 7,8%, com impacto inferior de 1%
sobre o custo operacional total das empresas de setores como indústria e
comércio. Esses ajustes seriam comparáveis aos aumentos reais do
salário-mínimo observados nos últimos anos - todos absorvidos pelo mercado
sem impactos relevantes sobre o nível de emprego.
"Nós verificamos, através de dados das pesquisas setoriais do IBGE, que o
trabalho ocupa hoje uma parcela relativamente pequena do custo operacional
desses setores”, destacou Felipe Pateo, técnico do Ipea e um dos responsáveis
pelo levantamento, ao lado da também técnica Joana Melo e da bolsista Juliane
Círiaco. Segundo eles, os setores que sofreriam com impactos maiores em termos
de custo operacional total (menos de 7%) seriam os de limpeza, vigilância,
segurança e investigação. “Demonstramos que ela [jornada de 40h semanais]
reduziria desigualdades no mercado de trabalho formal, uma vez que as jornadas
estendidas estão mais presentes em trabalho de baixa remuneração e maior
rotatividade”, completou Pateou.
E, sobre o PIB, os pesquisadores concluíram que os impactos seriam
compensados ou até superados com o aumento da qualidade de vida dos
trabalhadores, tempo disponibilizado para realização de tarefas de cuidado e,
consequentemente, melhoria da saúde da população.
Por meio de relatórios técnicos, o Dieese, por sua vez, alertou para a
distorção que defensores da 6x1 e da manutenção da jornada de 44h têm cometido
ao resumir a produtividade do país ao esforço individual.
Segundo a entidade, em na realidade o que torna um país competitivo são as
vantagens sistêmicas que oferecem, como:
- Um sistema financeiro a serviço do financiamento de capital de giro e de
longo prazo com taxas de juros acessíveis;
- Tecnologia e inovação: redes de institutos de pesquisas e universidades
voltadas para o desenvolvimento tecnológico;
- Qualificação da força de trabalho: população com altas taxas de escolaridade
e trabalhadores especializados;
- Investimentos em infraestrutura; e
- Regulação.
Levantamentos do Dieese pontuam ainda que, se o custo de mão-de-obra fosse
o principal diferencial de competitividade dos países, Japão e EUA estariam
entre os menos competitivos do mundo, dado o alto custo de mão-de-obra nesses
países.
"Esse argumento do setor patronal, de que a redução da jornada aumentaria
os custos da produção é usado desde o século passado, na luta do movimento
sindical para proibir o trabalho de crianças e conquistar direitos como as
férias. Portanto, o que está em disputa hoje, neste debate da redução da
jornada, é o que sempre esteve em disputa, que é a divisão dos ganhos da
produtividade. A forma como essa divisão é feita hoje, além de injusta para os
trabalhadores, colabora para a concentração de renda e perpetuação das
desigualdades”, destacou a presidenta da Contraf-CUT e vice-presidenta da CUT,
Juvandia Moreira.
Trabalhadores mais motivados, maior produtividade
Na Inglaterra, a experiência de reduzir a jornada semanal resultou em maior
produtividade. O teste foi realizado pelo instituto de pesquisas Autonomy,
no período de junho a dezembro de 2022. Das 61 empresas participantes 92%
adotaram de vez a redução da jornada.
No Brasil, o relatório “O futuro do trabalho no Brasil: viabilidade e impactos da
redução da jornada e fim da escala 6×1”, elaborado pela Subsecretaria de
Estudos do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), apontou
que 72% das empresas que substituíram a escala 6x1 pela 5x2 registraram
aumento direto na receita após a redução da jornada e 44% relataram melhoria
significativa no cumprimento de prazos operacionais.
O mesmo levantamento revelou que a 5x2 gerou aumento médio de 4,7% na folha de
pagamento, absorvido por ganhos operacionais que variaram entre 1,6% a 10,5%.
Fonte: Contraf-CUT
