A nova realidade do endividamento brasileiro
Esta é mais uma reportagem da série Por Dentro do Sistema
Financeiro, uma parceria entre o Jornal GGN e a Contraf-CUT que busca analisar
por dentro do Sistema Financeiro Nacional
Em março de 2026, o Brasil consolidou uma estatística que
ultrapassa a frieza dos números para se tornar um drama social: o país carrega
um fardo de R$ 557 bilhões em dívidas atrasadas, segundo o Mapa da
Inadimplência da Serasa.
Para o cidadão comum, esse montante não é apenas um dado macroeconômico, mas o
custo invisível de uma sobrevivência asfixiada.
É a angústia de se sentir um “figurante em um filme de prosperidade” que passa
nas redes sociais e nos discursos oficiais, enquanto a renda real é
sistematicamente drenada por uma engrenagem de juros sobre juros.
O que os dados subentendem, contudo, vai muito além de uma simples gestão
financeira ineficiente: estamos diante de uma mudança estrutural no perfil e
nas causas do endividamento brasileiro.
O “Triângulo das Bermudas” das finanças brasileiras
O economista Marco Antonio Castello Branco propõe um
diagnóstico clínico para o que chama de “vício de consumo” nacional. Ele
identifica três forças que, juntas, aniquilaram o poder de compra conquistado
nos últimos anos.
A armadilha reside em um sistema que não apenas oferece crédito, mas vicia o
consumidor na antecipação de um futuro que ele não pode pagar.
“O brasileiro médio, aquele que ganha entre três e dez salários-mínimos,
sente-se como um figurante em um filme de prosperidade que ele assiste, mas não
é a estrela principal. A razão é matemática e cruel: o aumento da renda foi
antecipadamente confiscado pelo ‘triângulo das bermudas’ formado por juros
bancários escorchantes, o dreno das apostas online (BETs) e um sistema de
crédito que viciou o consumo na antecipação do futuro.”
Neste cenário, as apostas online (BETs) surgem como um motor silencioso e
devastador. Se o crédito é a “dependência do futuro”, as BETs são a
“dependência da sorte”, drenando a liquidez das famílias para um ralo de
apostas que, em última análise, financia o crime organizado e aprofunda o
abismo financeiro.
O retrato do inadimplente
Os dados da Serasa de março de 2026 desconstroem o
preconceito de que o devedor brasileiro é um jovem irresponsável com gastos
supérfluos. A realidade é muito mais madura e dolorosa:
A Escala Real: atualmente, 50,51% da população adulta está inadimplente.
São 82,8 milhões de pessoas com o nome restrito — mais da metade dos
brasileiros maiores de idade.
Gênero e Idade: as mulheres (50,6%) devem ligeiramente mais que os homens.
Surpreendentemente, a crise não é juvenil: a faixa etária mais atingida é
a de 41 a 60 anos (35,5%), enquanto jovens de 18 a 25 anos representam apenas
11,2%. Isso sugere que a “geração sanduíche”, que sustenta filhos e pais
idosos, é a que mais sucumbe.
Origem do Débito: O débito não nasce do luxo. Embora bancos/cartões
liderem (27,3%), as contas básicas ou utilities (21%), como água, luz e gás,
ocupam o segundo lugar. O fato de mulheres e contas de sobrevivência estarem no
topo da lista indica que o endividamento é, hoje, uma estratégia desesperada
para manter o básico funcionando dentro de casa.
O uso do FGTS como tábua de salvação
Uma nova funcionalidade do programa Desenrola agora permite
o uso do saldo do FGTS para a renegociação de dívidas. Em teoria, é um fôlego
necessário para estancar o crescimento exponencial dos juros. No entanto, o
custo de oportunidade é altíssimo.
Ao utilizar o FGTS para quitar contas de consumo imediato (como as utilities
mencionadas acima), o trabalhador está, na prática, liquidando sua reserva de
segurança de longo prazo — destinada à aposentadoria ou à compra da casa
própria — para pagar o almoço de ontem. É uma troca de patrimônio futuro por
alívio presente, uma solução que resolve o sintoma (o nome sujo), mas sacrifica
a resiliência financeira do indivíduo lá na frente.
Por que “Perdoar” nem sempre é a Solução
A narrativa popular clama pelo perdão puro e simples das
dívidas, mas a economia comportamental e dados técnicos (Kanz, 2016) mostram
que o impacto pode ser nulo ou até negativo. Em contrapartida, outras
estratégias apresentam resultados mais sustentáveis:
A proposta da “dívida tóxica” vs. “CDB-social”
Uma solução inovadora em debate foca em atacar o spread bancário
através da Caixa Econômica Federal. A proposta é substituir a “dívida tóxica”
(rotativo do cartão, cheque especial e crédito pessoal) por um crédito social
estruturado.
A matemática da eficiência:
1. A Caixa emite um CDB-Social (pagando ~105% da Selic) para captar recursos.
2. Com esse capital, quita à vista as dívidas caras dos brasileiros junto aos
bancos privados.
3. O devedor troca um spread médio de 45,2% por uma taxa única de
aproximadamente 15,7% ao ano com a Caixa.
Essa manobra teria o potencial de liberar R$ 580 bilhões anuais para a economia
real. Em vez de alimentar a margem de lucro dos bancos, esse dinheiro
retornaria ao mercado sob forma de consumo e investimento produtivo.
Para Além das “Gambiarras”
Os programas de renegociação são, no limite, “gambiarras”
necessárias para evitar o colapso, mas não resolvem a causa raiz. O futuro
exige reformas estruturais que passem pelo teto de juros por categoria —
seguindo o modelo francês do taux d’usure, que define trimestralmente o limite
máximo de juros por produto para evitar abusos — e, inevitavelmente, pela
proibição definitiva das apostas online (BETs), que se tornaram o câncer do
orçamento familiar.
A provocação que fica é: estamos prontos para enfrentar o lobby do spread abusivo
e a epidemia das apostas, ou continuaremos reféns de ciclos infinitos de
renegociação que apenas adiam a próxima crise?
Fonte: Contraf-CUT
