Por trás do alto nível de endividamento no país: Bacen penaliza população com juros altos
Depois do Desenrola, que beneficiou 15 milhões com a renegociação de R$ 53 bilhões
em dívidas, o Ministério da Fazenda divulgou recentemente que está
construindo junto aos bancos um novo programa de reconciliação de dívidas.
Segundo o ministro Dario Durigan, a proposta é que até 80% das pendências financeiras sejam
perdoadas, com o financiamento do restante a partir de linhas mais baratas
de crédito.
O governo federal adiantou à imprensa que o novo programa será menor e mais
simples de acessar do que foi o Desenrola, com descontos de acordo com a renda
do trabalhador e foco especial nos brasileiros que ganham até três
salários-mínimos.
O endividamento das famílias atingiu 80,2%, segundo a
Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (CNC), sendo
que quase 30% (29,6%) estão inadimplentes, ou seja, com parcelas em atraso.
Além de maior nível histórico do levantamento feito desde 2010, o resultado
supera em 3,8 ponto percentual (p.p.) o nível de fevereiro de 2025.
A pesquisa da CNC também ajuda a entender algumas das razões para o crescente
endividamento no país: 85% das famílias com pendências financeiras apontaram o
cartão de crédito como principal fonte de suas dívidas.
“O sistema financeiro brasileiro é tradicionalmente reconhecido pela prática
das maiores taxas de juros do mundo, com cobranças que chegam a superar 400% ao
ano no crédito rotativo”, destacou Walcir Previtale, secretário de
Assuntos Socioeconômicos da Confederação Nacional das Trabalhadoras e dos
Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT).
O dirigente completou que o mercado de crédito também é apertado pelos níveis
da taxa básica de juros (Selic) praticados nos últimos anos pelo Banco Central (Bacen),
e que mantém o Brasil nas primeiras colocações do ranking
dos países com as maiores taxas de juros reais do mundo. “Assim,
para o movimento sindical, a criação de uma política de renegociação de dívidas
para a população é muito bem-vinda, mas essa medida não será suficiente se o
Banco Central não colaborar, mudando essa política monetária que contribui para
que o Brasil continue sendo o paraíso do rentismo”, completou.
Segundo o próprio Bacen, o comprometimento da renda das famílias com dívidas
bancárias passou de 22%, em 2019, para 28%, em 2022. E, atualmente, está em
29%.
A presidenta da Contraf-CUT e vice-presidenta da Central Única dos
Trabalhadores (CUT), Juvandia Moreira, reforçou que o endividamento causa
problemas sociais e econômicos que vão além do nome sujo. “Quando a
população é exposta a juros abusivos e por longo período, a ponto de
comprometer grande parte de sua renda mensal com dívidas, aumenta-se também o
risco de inadimplência, risco que, por sua vez, é usado como argumento pelas
instituições financeiras para o encarecimento do crédito. Esse é o ciclo
perigoso em que o aumento das dívidas potencializa os juros altos, que
dificultam a amortização”, explicou.
Os ataques da elite às políticas que beneficiam a população
Além do novo programa de renegociação de dívidas, que deve ser anunciado nos
próximos dias, em 2024 o Ministério da Fazenda conseguiu, por meio do Conselho
Monetário Nacional (CMN), implementar o teto de 100% para os juros rotativos do cartão de crédito,
em dívidas contraídas a partir de 3 de janeiro daquele ano.
Outra ação do Planalto para desafogar a população é o Crédito do Trabalhador, programa de consignado, em vigor
desde 2025, e que já movimentou R$ 117,1 bilhões em empréstimos no país.
Apesar de importantes e defendidas pela classe trabalhadora, essas medidas
sofrem ataques de setores que representam o mercado financeiro. Um articulista
do Valor Econômico, por exemplo, chegou a avaliar a proposta de um novo
programa de renegociação como “um remédio que vai apenas obrigar o Banco
Central a manter mais tempo o aperto monetário”. Essa mesma pessoa apontou
que “ao darem novo impulso ao consumo”, as políticas de isenção do Imposto
de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e de reajuste do salário-mínimo
justificariam decisões do Bacen de manter a Selic elevada.
No entanto, existem falhas de informação nesses ataques às políticas públicas
do governo federal, como nos explicou o doutor em economia e técnico da
subseção do Dieese na Contraf-CUT, Gustavo Cavarzan. “Uma dessas falhas
está em não esclarecer que os juros altos são os principais responsáveis pelo
crescimento da dívida pública federal”, explicou, lembrando em seguida que a
dívida pública impacta diretamente na política fiscal. “Segundo dados do
próprio BC, no período de doze meses, concluídos em fevereiro deste ano, os
gastos da União com o pagamento de juros dos títulos públicos alcançaram R$
1,037 trilhão (ou 8,07% do PIB). No mesmo período do ano anterior, os gastos
com esses papéis foram de R$ 924 bilhões (7,74% do PIB)", completou.
Cavarzan destacou ainda que a meta de inflação de 3% perseguida pelo Banco
Central é irreal para um país como o Brasil. “Essa meta de apenas 3% não
leva em consideração o tipo de comportamento de preços de um país como o nosso,
em que a maior parte da pressão inflacionária está ligada a fatores externos
(como guerras, crises climáticas e barreiras tarifárias) e, em menor medida, ao
aumento do consumo das famílias”, explicou.
“Portanto, dizer que políticas fiscais do governo, como programas de combate ao
endividamento, isenção do IR e aumento do salário-mínimo, vão obrigar o Banco
Central a manter o aperto monetário, com a Selic elevada por mais tempo,
demonstra falta de conhecimento sobre o cenário econômico do país. A realidade
é que a manutenção da política restritiva do Bacen, além de ineficiente para o
controle do tipo de inflação que enfrentamos no Brasil, resulta em sérios efeitos
colaterais para a vida da população”, concluiu.
Fonte: Contraf-CUT, com edição de SINTRAFI Barretos
