7º Congresso da Contraf-CUT debaterá sobre mudanças no sistema financeiro
O avanço da digitalização, o crescimento das fintechs e a
expansão das cooperativas de crédito vêm redesenhando o Sistema Financeiro
Nacional (SFN) e impactando diretamente a estrutura do emprego no setor. A
análise integra o caderno de debates com dados e reflexões sobre as mudanças em
curso e os desafios para a organização dos trabalhadores do ramo financeiro,
elaborado para o 7º Congresso Nacional da Contraf-CUT, que será realizado entre
os dias 27 e 29 de março, no Guarujá, em São Paulo.
Segundo o estudo, a intensificação do uso de tecnologia nas
instituições financeiras tem alterado a forma de prestação de serviços e o
perfil ocupacional da categoria. Hoje, cerca de 75% das transações bancárias
são realizadas por smartphones, enquanto o número de agências e postos de
trabalho segue em queda.
Para o economista Gustavo Cavarzan, do Departamento
Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a
transformação tecnológica exige respostas coletivas.
“A digitalização trouxe ganhos significativos de
produtividade e redução de custos para o sistema financeiro, mas também
intensificou a reestruturação do emprego. O desafio é garantir que os
benefícios dessa transformação sejam distribuídos de forma mais equilibrada,
sem aprofundar a precarização das relações de trabalho.”
A economista Vivian Machado, também do Dieese, ressalta que
a fragmentação do setor e o surgimento de novos modelos de negócio ampliam a
complexidade da ação sindical.
“A entrada de fintechs e cooperativas, somada às mudanças
regulatórias e tecnológicas, exige repensar as estratégias de organização e
negociação. Sem isso, uma parcela crescente dos trabalhadores ficará fora das
conquistas históricas da categoria bancária.”
Propostas para enfrentar os desafios
Diante desse cenário, dirigentes da Contraf-CUT defendem a
construção de alternativas que garantam proteção ao emprego e distribuição mais
justa dos ganhos gerados pela inovação tecnológica. O secretário de Assuntos
Socioeconômicos da entidade, Walcir Previtale, afirma que o debate precisa
avançar para além do diagnóstico.
“O aumento da produtividade no sistema financeiro é
inegável, assim como o crescimento dos lucros dos bancos. O que defendemos é
que os trabalhadores também sejam beneficiados por esse avanço. É preciso
discutir mecanismos de repartição desses ganhos, como a redução da jornada sem
redução salarial e a ampliação de direitos.”
Entre as propostas defendidas pela entidade está a
implementação de uma jornada semanal de quatro dias por meio de escalas
alternadas, com manutenção do funcionamento das agências e serviços de segunda
a sexta-feira.
“A tecnologia permite reorganizar o trabalho sem prejudicar
o atendimento à população. Com planejamento, é possível reduzir o número de
dias trabalhados, evitar demissões e melhorar a qualidade de vida da
categoria”, acrescenta Previtale.
O secretário de Relações do Trabalho da Contraf-CUT,
Jeferson Meira (Jefão), responsável pelo acompanhamento das pautas de interesse
dos trabalhadores no Congresso Nacional, destaca que a entidade atua para que
mudanças estruturais no setor não resultem em perdas de direitos.
“Estamos dialogando com parlamentares e acompanhando a
tramitação de projetos que impactam o mundo do trabalho no sistema financeiro.
A tecnologia não pode ser usada como justificativa para precarizar ou reduzir
postos de trabalho. Nosso objetivo é construir uma agenda legislativa que
garanta proteção social, negociação coletiva forte e distribuição dos ganhos de
produtividade.”
Reconfiguração do setor e desafios sindicais
O caderno mostra que, desde 2012, o setor bancário perdeu
mais de 90 mil vínculos de trabalho e registrou o fechamento de milhares de
agências, ao mesmo tempo em que surgiram novas ocupações ligadas à tecnologia e
novas formas de contratação.
Além disso, fintechs já superam em número as instituições
bancárias tradicionais, e as cooperativas de crédito ampliaram
significativamente sua participação no SFN, oferecendo praticamente os mesmos
produtos e serviços dos bancos.
Para Jefão, essa reorganização reforça a necessidade de
ampliar o alcance da representação sindical.
“O setor financeiro se tornou mais diversificado e
fragmentado. Precisamos organizar todos os trabalhadores do ramo,
independentemente do tipo de empresa ou vínculo, para garantir condições dignas
de trabalho e participação nos resultados gerados pelo crescimento do sistema.”
Debate estratégico no Congresso da Contraf-CUT
O estudo servirá como base para as discussões do 7º
Congresso Nacional da Contraf-CUT, que terá como eixo central a construção de
estratégias para enfrentar as transformações estruturais do sistema financeiro
e fortalecer a organização sindical.
Para Vivian Machado, o momento é decisivo. “As mudanças em
curso não são conjunturais, mas estruturais. A forma como sindicatos e
trabalhadores responderem agora terá impacto direto na configuração futura do
emprego no setor financeiro.”
Já Gustavo Cavarzan destaca que o debate sobre produtividade
e tecnologia precisa ser acompanhado de políticas que promovam inclusão e
justiça social. “A inovação deve ser uma ferramenta para melhorar a vida das
pessoas, não para ampliar desigualdades. Esse é o grande desafio colocado para
o mundo do trabalho.”
Fonte: Contraf-CUT
